{"id":56199,"date":"2026-10-13T04:00:00","date_gmt":"2026-10-13T07:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/noticiasdestaque.com.br\/index.php\/2026\/10\/13\/preco-recorde-poe-a-prova-a-capacidade-do-brasil-de-transformar-recurso-em-mina\/"},"modified":"2026-10-13T04:00:00","modified_gmt":"2026-10-13T07:00:00","slug":"preco-recorde-poe-a-prova-a-capacidade-do-brasil-de-transformar-recurso-em-mina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/noticiasdestaque.com.br\/index.php\/2026\/10\/13\/preco-recorde-poe-a-prova-a-capacidade-do-brasil-de-transformar-recurso-em-mina\/","title":{"rendered":"Pre\u00e7o recorde p\u00f5e \u00e0 prova a capacidade do Brasil de transformar recurso em mina"},"content":{"rendered":"<p>Com a on\u00e7a do ouro negociada em torno de US$ 4.300, depois de ter superado US$ 5.000 no pico recente, o setor mineral brasileiro vive um momento raro de margens amplas, capta\u00e7\u00f5es bem-sucedidas em bolsa e investidores \u00e0 procura de ativos. Por\u00e9m, o recado mais repetido no semin\u00e1rio &#8220;Al\u00e9m das On\u00e7as: presente e futuro dos projetos de ouro no Brasil&#8221;, realizado pela Brasil Mineral no dia 22 de setembro de 2026, no Audit\u00f3rio Mattos Filho, na Avenida Faria Lima, em S\u00e3o Paulo, foi outro: pre\u00e7o alto, por si s\u00f3, n\u00e3o resolve os gargalos que separam um bom dep\u00f3sito de uma mina lucrativa.<\/p>\n<p>A programa\u00e7\u00e3o foi dividida em cinco blocos. Uma palestra de abertura tratou do mercado de ouro, globalmente e no Brasil. Os tr\u00eas pain\u00e9is seguintes discutiram, nesta ordem, a passagem da prospec\u00e7\u00e3o \u00e0 mina, os novos players do ouro no pa\u00eds e a produ\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel. Um bate-bola de encerramento foi dedicado aos caminhos para financiar projetos. O evento tratou de lead time, falta de profissionais, engenharia imatura, juros, inseguran\u00e7a regulat\u00f3ria, garimpo, rastreabilidade, descarboniza\u00e7\u00e3o e acesso ao mercado de capitais.<\/p>\n<p>O evento contou com o patroc\u00ednio das seguintes empresas: MID Infraestrutura, SBF Engenharia, Core Case (Categoria Master); AngloGold Ashanti, PA Gold, Ero Brasil Xavantina, Geosol, Mining Ventures, Kinross e CMOC (Categoria Ouro); Brinks, Tracbel, Metso, Fagundes (Categoria Prata), al\u00e9m do apoio da Mattos Filho, AP consultoria e Frederico Bedran Advogados. O encontro deu sequ\u00eancia \u00e0 edi\u00e7\u00e3o de 2025, tamb\u00e9m dedicada ao metal.<\/p>\n<p>Anfitri\u00e3o do encontro, Adriano Trindade, s\u00f3cio e head de minera\u00e7\u00e3o do Mattos Filho e conselheiro da Brasil Mineral, contou que o escrit\u00f3rio come\u00e7ou h\u00e1 tr\u00eas anos a promover eventos com o objetivo de &#8220;trazer a minera\u00e7\u00e3o para a Faria Lima&#8221;, aproximando o setor do mercado financeiro paulista. Segundo ele, naquela \u00e9poca talvez ningu\u00e9m imaginasse que a minera\u00e7\u00e3o se tornaria tema de campanha eleitoral e do discurso do presidente da Rep\u00fablica na Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas. &#8220;Isso mostra o tanto que a minera\u00e7\u00e3o tem se tornado mais din\u00e2mica e talvez at\u00e9 mais desafiadora para pensar o futuro&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p>O advogado Frederico Bedran, do escrit\u00f3rio Frederico Bedran Advogados e tamb\u00e9m conselheiro da revista, brincou que no evento anterior &#8220;o valor da on\u00e7a subiu s\u00f3 por conta do nosso evento&#8221;, mas foi ao ponto ao descrever o descompasso entre a demanda de investidores e a oferta de ativos. Segundo ele, toda semana algum investidor nacional ou estreante no setor pergunta se ele tem um projeto de ouro licenciado e em produ\u00e7\u00e3o. &#8220;A minha resposta \u00e9: se voc\u00ea tiver, tamb\u00e9m tenho interesse.&#8221; Para Bedran, o papel de encontros como esse \u00e9 mostrar a din\u00e2mica real do setor, que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil e tem desafios, mas que justamente por isso exige reunir as melhores cabe\u00e7as.<\/p>\n<p><em>&#8220;A rela\u00e7\u00e3o reserva\/ produ\u00e7\u00e3o \u00e9 de 20 anos, muito pr\u00f3ximo desse lead time de 16 anos. Ent\u00e3o a gente tem essa press\u00e3o por tempo para a reposi\u00e7\u00e3o das reservas.&#8221;<\/em>\u2014 Gilberto Azevedo<\/p>\n<h2>Mercado de ouro global e Brasil<\/h2>\n<p>A palestra de abertura coube a Gilberto Azevedo, engenheiro de minas pela Universidade Federal de Ouro Preto, com MBA empresarial e mestrado em administra\u00e7\u00e3o pela Funda\u00e7\u00e3o Dom Cabral. Ex-presidente da Kinross Brasil Minera\u00e7\u00e3o, maior produtora de ouro do pa\u00eds, ele hoje ocupa a vice-presid\u00eancia s\u00eanior de Novos Neg\u00f3cios da empresa. Azevedo abriu sua apresenta\u00e7\u00e3o com uma foto de aves no Parque Estadual de Paracatu, que apresentou como um dos legados da companhia, e com um mapa de palavras gerado por intelig\u00eancia artificial para medir, de forma qualitativa, os temas que mobilizam a conversa sobre o setor. Ele chamou aten\u00e7\u00e3o para a predomin\u00e2ncia de verbos como ampliar, pesquisar, investir, desenvolver e explorar, que, em sua opini\u00e3o, denotam uma din\u00e2mica intensa.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o do executivo, mais importante do que o crescimento de cerca de 17% na demanda global nos \u00faltimos 15 anos \u00e9 a mudan\u00e7a de perfil dessa demanda. A participa\u00e7\u00e3o de bancos centrais e do investimento saltou de cerca de 40%, em 2010, para aproximadamente 60% em 2025. \u00c9 um dos vetores que impulsionam a procura por novos projetos e por ativos de ouro.<\/p>\n<p>O outro vetor, que segundo ele &#8220;nem sempre aparece tanto&#8221;, \u00e9 a necessidade de reposi\u00e7\u00e3o de reservas. As reservas globais somam cerca de 2 bilh\u00f5es de on\u00e7as, para uma produ\u00e7\u00e3o anual de aproximadamente 104 milh\u00f5es de on\u00e7as, o que resulta numa rela\u00e7\u00e3o reserva\/produ\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de cerca de 20 anos. A reposi\u00e7\u00e3o, lembrou, s\u00f3 pode vir de duas fontes: a convers\u00e3o de recursos em reservas ou a descoberta de novos dep\u00f3sitos. Quando ela ocorre pela convers\u00e3o de recursos, viabilizada justamente pela alta de pre\u00e7o, carrega impl\u00edcita uma eleva\u00e7\u00e3o do custo de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma dificuldade \u00e9 o tempo, j\u00e1 que o lead time m\u00e9dio entre descoberta e in\u00edcio de opera\u00e7\u00e3o \u00e9 de 16 anos no mundo e de cerca de 17,3 anos no Brasil, sem levar em conta a taxa de insucesso da explora\u00e7\u00e3o. Se a conta come\u00e7ar no in\u00edcio da pesquisa, o prazo fica ainda maior. &#8220;A rela\u00e7\u00e3o reserva\/produ\u00e7\u00e3o \u00e9 de 20 anos, muito pr\u00f3ximo desse lead time de 16 anos. Ent\u00e3o, temos a press\u00e3o por tempo para a reposi\u00e7\u00e3o das reservas&#8221;, disse o executivo.<\/p>\n<h2>Os quatro desafios<\/h2>\n<p>Azevedo organizou os desafios em quatro frentes. A primeira \u00e9 o licenciamento, que responde por boa parte do lead time e cuja principal fragilidade \u00e9 a falta de previsibilidade dos prazos. A segunda \u00e9 o conhecimento geol\u00f3gico: apenas 28% do territ\u00f3rio brasileiro est\u00e1 mapeado na escala de 1:100.000 e 53% na de 1:250.000, o que traz incerteza, encarece a pesquisa e reduz, num primeiro momento, a atratividade para investimento. A terceira \u00e9 a necessidade de capital. Com um intervalo t\u00e3o longo entre a descoberta e a entrada em opera\u00e7\u00e3o, o projeto precisa ser financiado por muitos anos com fluxo de caixa negativo, o que exige coopera\u00e7\u00e3o dentro do setor.<\/p>\n<p>A quarta frente \u00e9 a sustentabilidade, que ele definiu como equil\u00edbrio entre ambiente, benef\u00edcio social e resultado econ\u00f4mico. Nesse campo, Gilberto destacou a press\u00e3o crescente pelo consentimento pr\u00e9vio e informado das comunidades e tr\u00eas temas de gest\u00e3o ambiental: biodiversidade, \u00e1gua e rejeitos. Somam-se a eles a previsibilidade do licenciamento, a descarboniza\u00e7\u00e3o e a efici\u00eancia energ\u00e9tica, tanto pela quest\u00e3o clim\u00e1tica quanto pelo custo da energia, e a sustentabilidade econ\u00f4mica de longo prazo. &#8220;A sustentabilidade \u00e9 o fiel dessa balan\u00e7a&#8221;, afirmou. Ele encerrou sua apresenta\u00e7\u00e3o deixando uma pergunta: como maximizar a efici\u00eancia da minera\u00e7\u00e3o de ouro nesse contexto?<\/p>\n<h2>Da prospec\u00e7\u00e3o \u00e0 mina: viabilidade t\u00e9cnica e investimento<\/h2>\n<p>O primeiro painel foi moderado por H\u00e9lcio Guerra, s\u00f3cio da BIS Invest Fus\u00f5es e Aquisi\u00e7\u00f5es, engenheiro metalurgista pela UFMG, com passagens pela Vale, pela AngloGold Ashanti Brasil Minera\u00e7\u00e3o e pela Minera\u00e7\u00e3o Serra Grande, e ex-vice-presidente s\u00eanior Am\u00e9ricas da AngloGold Ashanti. Guerra foi escolhido personalidade do ano do setor mineral pelos leitores de Brasil Mineral em 2014 e 2016.<\/p>\n<p>O moderador prop\u00f4s um debate menos conceitual e mais apoiado na experi\u00eancia de quem atua em cada elo da cadeia, da explora\u00e7\u00e3o \u00e0 opera\u00e7\u00e3o, passando pelo desenvolvimento e pela implanta\u00e7\u00e3o. Ele lembrou que se trata de um processo multidisciplinar, complexo e longo, cujos prazos muitas vezes superam o ciclo de pre\u00e7os das commodities. O risco, disse, \u00e9 o &#8220;efeito manada&#8221;: investir quando o pre\u00e7o est\u00e1 no topo, como o investidor que compra a\u00e7\u00f5es quando a bolsa est\u00e1 em alta, e ser surpreendido no meio do caminho. &#8220;O projeto de minera\u00e7\u00e3o \u00e9 igual a videogame: voc\u00ea passa de fase, passa outra fase, est\u00e1 sempre numa fase na frente, e nunca chega no final&#8221;, disse Guerra.<\/p>\n<h2>A vis\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Jo\u00e3o Luiz Nogueira de Carvalho, engenheiro ge\u00f3logo formado em Ouro Preto, com 35 anos no setor, presidente da Geosol e da Geopar, diretor executivo da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Pesquisa Mineral (ABPM) e conselheiro da Adimb, come\u00e7ou pelo in\u00edcio da cadeia: a sele\u00e7\u00e3o de \u00e1rea e a obten\u00e7\u00e3o de licen\u00e7a ambiental para sondagem e coleta de amostras. Tudo, disse, depende de legisla\u00e7\u00e3o e licen\u00e7as, da licen\u00e7a de instala\u00e7\u00e3o \u00e0 de opera\u00e7\u00e3o, e acima de todas elas est\u00e1 a licen\u00e7a social.<\/p>\n<h2>Pre\u00e7o recorde p\u00f5e \u00e0 prova a capacidade do Brasil de transformar recurso em mina<\/h2>\n<p><em>&#8220;Todo mundo s\u00f3 fala em terras raras. Mas a commodity que desponta em pesquisa e an\u00e1lise qu\u00edmica mineral \u00e9 o ouro.&#8221;<\/em>\u2014 Jo\u00e3o Luiz Nogueira de Carvalho, Geosol e ABPM<\/p>\n<p>Carvalho destacou tr\u00eas necessidades em que empresas, associa\u00e7\u00f5es e institutos v\u00eam trabalhando: a libera\u00e7\u00e3o de \u00e1reas pela ag\u00eancia reguladora que, segundo ele, deveria estar disponibilizando v\u00e1rios prospectos e n\u00e3o est\u00e1; uma regula\u00e7\u00e3o clara e transparente; e celeridade. Ele comparou o projeto de explora\u00e7\u00e3o a um empreendimento imobili\u00e1rio, que tamb\u00e9m exige selecionar a \u00e1rea, fazer o projeto, obter licen\u00e7as e construir a rela\u00e7\u00e3o com o entorno. A diferen\u00e7a \u00e9 que a minera\u00e7\u00e3o ainda precisa pesquisar para encontrar aquilo que vai se tornar um ativo. &#8220;N\u00f3s estamos na Faria Lima, ent\u00e3o aqui \u00e9 um bom ambiente para falar sobre minera\u00e7\u00e3o e investimentos&#8221;, observou. Enquanto o Brasil leva cerca de 17 anos para p\u00f4r uma mina em opera\u00e7\u00e3o, outros pa\u00edses fazem isso em 12 a 14 anos. Nesse intervalo, disse, o pa\u00eds pode perder o &#8220;bonde&#8221; de um momento que classificou como \u00edmpar para o ouro.<\/p>\n<p>O ge\u00f3logo apontou vantagens brasileiras num mundo marcado por guerras e instabilidade econ\u00f4mica e pol\u00edtica: relativa tranquilidade institucional e um vasto potencial geol\u00f3gico ainda desconhecido, com apenas 53% do territ\u00f3rio mapeado na escala de 1:250.000 e pouco investimento em sondagem e geof\u00edsica terrestre e a\u00e9rea. Esse potencial, por\u00e9m, s\u00f3 atrai capital com legisla\u00e7\u00e3o clara, e o capital precisa entender que minera\u00e7\u00e3o \u00e9 investimento de m\u00e9dio e longo prazo, com retorno maior que o de certificados como CRIs e CRAs. Carvalho sugeriu a cria\u00e7\u00e3o de um certificado de receb\u00edveis de minera\u00e7\u00e3o, ou de commodities minerais, come\u00e7ando pelo ouro.<\/p>\n<p>Com base no que a Geosol acompanha, ele trouxe um dado que surpreendeu parte da plateia: o ouro responde por 52% das an\u00e1lises qu\u00edmicas feitas para pesquisa mineral no Brasil. Em seguida v\u00eam metais-base, ferro, l\u00edtio e terras raras. Em sexto lugar, com 3%, aparecem as rochas usadas no intemperismo acelerado (ERW, na sigla em ingl\u00eas), tema que, segundo ele, quase ningu\u00e9m discute. &#8220;Todo mundo s\u00f3 fala em terras raras, n\u00e9? Mas a commodity que desponta em pesquisa e an\u00e1lise qu\u00edmica mineral \u00e9 o ouro.&#8221;<\/p>\n<h2>O que o investidor estrangeiro enxerga<\/h2>\n<p>Instado pelo moderador a dizer o que o investidor estrangeiro olha primeiro no Brasil, Carvalho respondeu que, depois de entender a geologia, cujas informa\u00e7\u00f5es hoje est\u00e3o dispon\u00edveis \u00e0 dist\u00e2ncia, ele quer saber se existe uma ind\u00fastria de servi\u00e7os capaz de sustentar a explora\u00e7\u00e3o e a implanta\u00e7\u00e3o. Os estrangeiros se surpreendem, contou, ao visitar laborat\u00f3rios que processam 1,3 milh\u00e3o de amostras e empresas de sondagem com 1,5 milh\u00e3o de metros perfurados. Ele lembrou a montagem da mina S11D, em Caraj\u00e1s, com 116 m\u00f3dulos do tamanho de pr\u00e9dios de quatro ou cinco andares montados com m\u00e3o de obra treinada no pa\u00eds, e citou a Embraer como prova de capacidade industrial.<\/p>\n<p>Os problemas que o investidor percebe, segundo Carvalho, s\u00e3o outros. O primeiro \u00e9 a m\u00e3o de obra: &#8220;Hoje em dia n\u00e3o s\u00e3o as pessoas que procuram emprego, mas o emprego que procura as pessoas.&#8221; O segundo \u00e9 o custo de capital, que faz o dinheiro vir de fora, porque ningu\u00e9m quer investir com juros de 12%, quando l\u00e1 fora eles est\u00e3o entre 2% e 4%. O terceiro \u00e9 o licenciamento. O quarto \u00e9 a instabilidade institucional. Ele citou a cria\u00e7\u00e3o do Conselho Nacional de Minera\u00e7\u00e3o na semana anterior ao evento, no qual o Ibram tem representa\u00e7\u00e3o, e ideias anteriores de criar uma estatal do setor. &#8220;Essas quest\u00f5es que o governo vai criando assustam, afugentam todo e qualquer investidor que venha para c\u00e1.&#8221;<\/p>\n<p>H\u00e9lcio Guerra acrescentou que o subsolo pouco explorado tem um lado negativo (a falta de conhecimento) e um positivo (a oportunidade). Ele observou, por\u00e9m, que o pa\u00eds ainda n\u00e3o encontrou outra mina como Paracatu. Os dep\u00f3sitos caracterizados at\u00e9 aqui s\u00e3o de porte m\u00e9dio-grande a m\u00e9dio-pequeno, o que pode ser uma caracter\u00edstica geol\u00f3gica ou reflexo da pr\u00f3pria imaturidade da explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>Engenharia antes da obra<\/h2>\n<p>Walace Monteiro, da MID Infraestrutura, engenheiro mec\u00e2nico pela Universidade Federal de Juiz de Fora, p\u00f3s-graduado em gest\u00e3o de projetos pela FGV e com 25 anos de experi\u00eancia em projetos no regime EPC, apontou um desperd\u00edcio recorrente. Os projetos levam em m\u00e9dia 15 ou 16 anos para sair do papel, mas esse tempo raramente \u00e9 usado para investir numa engenharia de qualidade. A contrata\u00e7\u00e3o de uma empresa capaz de detalhar o projeto costuma ficar para o fim da linha, com prazos quase inexequ\u00edveis, e o projeto acaba sendo tocado em fast track.<\/p>\n<p>A alternativa que ele vem defendendo nos \u00faltimos tr\u00eas anos, junto a clientes e empresas de engenharia, \u00e9 o envolvimento antecipado do construtor (early contractor involvement). A ideia \u00e9 trabalhar ao m\u00e1ximo a modulariza\u00e7\u00e3o, a customiza\u00e7\u00e3o das especifica\u00e7\u00f5es e a padroniza\u00e7\u00e3o, para que, no momento da decis\u00e3o de implanta\u00e7\u00e3o, o que chega ao canteiro seja cada vez mais engenheirado e pr\u00e9-montado. Isso responde a uma restri\u00e7\u00e3o cada vez mais s\u00e9ria: a falta de m\u00e3o de obra dispon\u00edvel. Os projetos de ouro costumam estar em locais pouco privilegiados, que exigem levar junto a infraestrutura para acomodar os trabalhadores. Guerra comentou que o conceito exige pensar o projeto de forma matricial, e n\u00e3o sequencial, at\u00e9 porque muitas vezes quem projeta n\u00e3o \u00e9 quem constr\u00f3i nem quem vai operar.<\/p>\n<p>Mais adiante, perguntado sobre como uma empresa de servi\u00e7os de engenharia, intensiva em m\u00e3o de obra e em capital, mant\u00e9m a competitividade num setor de altas e baixas, Monteiro disse que &#8220;a sabedoria est\u00e1 nas pessoas&#8221; e em ret\u00ea-las para levar a cultura e as li\u00e7\u00f5es aprendidas de um projeto ao seguinte. O que vem funcionando, contou, \u00e9 a meritocracia. No in\u00edcio de cada projeto s\u00e3o definidos cinco indicadores, medidos trimestralmente, e a remunera\u00e7\u00e3o vari\u00e1vel, do ch\u00e3o de f\u00e1brica \u00e0 coordena\u00e7\u00e3o, fica atrelada a cronograma, qualidade, seguran\u00e7a e custo. O modelo funciona como uma alian\u00e7a que envolve toda a for\u00e7a de trabalho e tem mantido a rotatividade num patamar baixo. Monteiro lembrou projetos em que a rotatividade passou de 10%, com custo dobrado: o de repor o trabalhador e o do atraso no cronograma. &#8220;O custo que voc\u00ea tem precisa ser encarado como investimento na meritocracia, e ele \u00e9 menor do que essas perdas.&#8221;<\/p>\n<h2>Capacidade de execu\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Ediney Drummond, country manager da Hochschild Mining no Brasil, respons\u00e1vel pela opera\u00e7\u00e3o de Mara Rosa (GO) e pelo projeto Monte do Carmo (TO), concordou com a import\u00e2ncia da maturidade da engenharia, mas disse que, superadas a engenharia e a quest\u00e3o do capital, o foco precisa ir para a capacidade de execu\u00e7\u00e3o, que passa sobretudo por pessoas: primeiro para implantar e, depois, para operar.<\/p>\n<p>Drummond descreveu uma rotatividade de pessoal &#8220;nunca vista&#8221; no setor, pelo menos nos anos em que ele atua, e que n\u00e3o \u00e9 exclusividade de uma empresa. Pessoas que lideram processos importantes muitas vezes n\u00e3o tiveram tempo suficiente para se preparar. &#8220;N\u00f3s estamos queimando etapas por necessidade. N\u00e3o \u00e9 porque esse grupo aqui faz uma gest\u00e3o ruim de pessoas.&#8221; Segundo ele, isso coloca em xeque a continuidade plena de funcionamento de um projeto.<\/p>\n<p>O segundo ponto cr\u00edtico, disse, s\u00e3o os parceiros de servi\u00e7o de longo prazo. H\u00e1 alguns anos, prestadores de servi\u00e7o ficavam dez ou 12 anos numa opera\u00e7\u00e3o. Hoje, manter um contrato de tr\u00eas anos \u00e9 dif\u00edcil, e cada troca interrompe ciclos naturais de melhoria cont\u00ednua e estabilidade. &#8220;Come\u00e7a do zero.&#8221;<\/p>\n<h2>Pre\u00e7o recorde p\u00f5e \u00e0 prova a capacidade do Brasil de transformar recurso em mina<\/h2>\n<p>Por fim, ele lembrou que um bom recurso geol\u00f3gico n\u00e3o \u00e9 necessariamente um bom neg\u00f3cio. Ele s\u00f3 vira neg\u00f3cio quando as on\u00e7as que est\u00e3o na terra se transformam em &#8220;fluxo de caixa previs\u00edvel, sustent\u00e1vel e seguro&#8221;. Com uma opera\u00e7\u00e3o em curso, um projeto greenfield prestes a sair e aten\u00e7\u00e3o ao mercado de aquisi\u00e7\u00f5es, a Hochschild considera decisivo, na hora de avaliar um ativo no Brasil, saber em que estado ele est\u00e1. &#8220;O Brasil \u00e9 muito grande, existem muitos Brasis. N\u00f3s temos clareza na nossa vis\u00e3o, onde queremos estar e onde temos retic\u00eancias de estar.&#8221;<\/p>\n<p><em>&#8220;O pre\u00e7o alto do ouro n\u00e3o deve ser confundido com licen\u00e7a para investir mal.&#8221;<\/em>\u2014 Ediney Drummond, Hochschild Mining<\/p>\n<p>O relato mais franco do painel veio quando H\u00e9lcio Guerra perguntou como conciliar crescimento, preserva\u00e7\u00e3o de caixa e ciclo de mercado, num momento em que o pre\u00e7o desperta a vontade de crescer em acionistas e mercado ao mesmo tempo em que os custos sobem. &#8220;\u00c9 o sandu\u00edche, press\u00e3o de todo lado&#8221;, respondeu Drummond. Ele contou que o projeto Monte do Carmo tem licen\u00e7a de instala\u00e7\u00e3o, capital, acesso \u00e0 terra e boa rela\u00e7\u00e3o com todos os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, mas ainda n\u00e3o tem um grau de maturidade de engenharia suficiente, e por isso a empresa decidiu n\u00e3o avan\u00e7ar. A press\u00e3o vem de analistas e grandes investidores, que perguntam em todas as conversas por que o projeto n\u00e3o andou. &#8220;N\u00f3s estamos sendo firmes e segurando para n\u00e3o avan\u00e7ar. Mas confesso a todos aqui que \u00e9 dif\u00edcil.&#8221;<\/p>\n<p>A cautela, explicou, vem da experi\u00eancia de Mara Rosa, iniciada num contexto muito diferente e com um n\u00edvel de maturidade de engenharia menos satisfat\u00f3rio. O projeto foi entregue no prazo e no or\u00e7amento, mas o ramp-up est\u00e1 levando muito mais tempo do que o normal, e a empresa teve de fazer, depois da entrada em opera\u00e7\u00e3o, investimentos de capital que deveriam ter sido feitos na fase de projeto. Ediney lembrou que os projetos da empresa, ao contr\u00e1rio de Paracatu, s\u00e3o de pequena e m\u00e9dia escala. &#8220;Um projeto de pequena escala n\u00e3o aceita desaforos. O grande tamb\u00e9m n\u00e3o, mas tem uma flexibilidade um pouco maior.&#8221; Se fosse pelo pre\u00e7o do ouro, concluiu, a constru\u00e7\u00e3o de Monte do Carmo j\u00e1 estaria a todo vapor.<\/p>\n<h2>Juros reais, d\u00f3lar e o custo do dinheiro no Brasil<\/h2>\n<p>Lucas Laghi, s\u00f3cio e diretor de equity research da XP, onde lidera h\u00e1 mais de seis anos a an\u00e1lise dos setores de minera\u00e7\u00e3o, siderurgia, papel e celulose e bens de capital, respondeu \u00e0 pergunta sobre se existe dinheiro para financiar projetos de ouro com uma leitura do cen\u00e1rio global. De um lado, guerras, conflitos, energia cara e tarifas americanas tornam o mundo cada vez mais inflacion\u00e1rio. De outro, investimentos trilion\u00e1rios em infraestrutura de intelig\u00eancia artificial e data centers puxam capital, e os bancos centrais relutam em elevar demais os juros.<\/p>\n<p>Em sua vis\u00e3o, o ouro \u00e9 menos uma prote\u00e7\u00e3o contra a infla\u00e7\u00e3o do que uma prote\u00e7\u00e3o contra juros reais baixos ou negativos. &#8220;Juro real negativo \u00e9 um demonstrativo de que aquela moeda n\u00e3o \u00e9 capaz de reter valor&#8221;, explicou, lembrando que essa caracter\u00edstica sustentou o d\u00f3lar como moeda de refer\u00eancia no \u00faltimo s\u00e9culo. O simples fato de o mercado cotar o ouro em d\u00f3lares por on\u00e7a, observou, j\u00e1 mostra um dos motivos da alta: o d\u00f3lar vem perdendo valor. Somam-se a isso a demanda de bancos centrais, a tend\u00eancia de desdolariza\u00e7\u00e3o e os fluxos para ETFs, vindos sobretudo da \u00c1sia, mas tamb\u00e9m da Europa e dos Estados Unidos. Estes \u00faltimos s\u00e3o mais sens\u00edveis a pre\u00e7o e mais vol\u00e1teis: entram quando se espera alta e saem ao primeiro sinal de queda.<\/p>\n<p>O principal risco, na avalia\u00e7\u00e3o de Laghi, est\u00e1 no petr\u00f3leo. A alta da energia pressiona a infla\u00e7\u00e3o e pode for\u00e7ar os bancos centrais a subir juros. Isso ainda n\u00e3o est\u00e1 acontecendo: nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump pressiona o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, a baixar os juros, e ele tem resistido. O cen\u00e1rio de juros reais americanos continua favor\u00e1vel ao ouro.<\/p>\n<p>No Brasil, o obst\u00e1culo \u00e9 a Selic de 13,75%, que eleva o custo de oportunidade do investidor local, j\u00e1 tradicionalmente receoso com projetos pr\u00e9-operacionais. No Canad\u00e1, os juros est\u00e3o em 2,25%, e na Austr\u00e1lia, em 4,35%, o que explica o maior apetite por risco nesses mercados. Ainda assim, Laghi se disse otimista: mesmo com custos em alta, o pre\u00e7o atual garante &#8220;um baita retorno&#8221; para os projetos em implanta\u00e7\u00e3o, e a XP v\u00ea crescimento de produ\u00e7\u00e3o e de fluxo de caixa em v\u00e1rias empresas que acompanha. &#8220;O que falta fechar a equa\u00e7\u00e3o s\u00e3o os juros.&#8221;<\/p>\n<h2>Precifica\u00e7\u00e3o de um projeto de ouro<\/h2>\n<p>Pre\u00e7o recorde p\u00f5e \u00e0 prova a capacidade do Brasil de transformar recurso em mina<\/p>\n<p>H\u00e9lcio Guerra pediu ao analista que explicasse como o mercado precifica um projeto \u00e0 medida que seus riscos v\u00e3o sendo mitigados. Laghi descreveu a l\u00f3gica. O ponto de partida \u00e9 o fluxo de caixa potencial do projeto, considerando apenas as reservas e excluindo os recursos, trazido a valor presente com uma taxa de desconto proporcional ao est\u00e1gio de risco. Empresas pr\u00e9-operacionais listadas costumam valer de 20% a 30% desse valor presente, ou seja, negociam a um price to NAV de 0,2 a 0,3. \u00c0 medida que o projeto obt\u00e9m licen\u00e7as, corrobora a engenharia e come\u00e7a a produzir, o m\u00faltiplo se aproxima de 1.<\/p>\n<p>Com um hist\u00f3rico de explora\u00e7\u00e3o que compense a exaust\u00e3o natural do ativo convertendo recursos em reservas, o mercado passa a incluir os recursos na conta. As grandes produtoras, acima de um &#8220;n\u00famero m\u00e1gico&#8221; de cerca de 1 milh\u00e3o de on\u00e7as anuais, que permite modelar perpetuidade, costumam negociar acima do NAV, a 1,2 ou 1,3 vez, porque o mercado passa a pagar por crescimento, por fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es e por novos projetos.<\/p>\n<p>H\u00e9lcio Guerra complementou com o conceito de opcionalidade, que considera fundamental a partir da pr\u00f3pria carreira. Ter recursos geol\u00f3gicos trabalhados, plantas modulares que permitam ganhar escala e projetos brownfield, e n\u00e3o apenas greenfield, permite responder rapidamente a uma alta de pre\u00e7os. &#8220;Em vez de estar consumindo capex, voc\u00ea est\u00e1 gerando resultado com o pr\u00f3prio neg\u00f3cio.&#8221;<\/p>\n<p>No encerramento do painel, foi perguntado a Laghi qual seria o impacto de um movimento de pa\u00edses para retirar suas reservas de ouro custodiadas nos Estados Unidos. O analista disse n\u00e3o ter uma vis\u00e3o clara, mas observou que, no ouro, a oferta tende a pesar menos na forma\u00e7\u00e3o de pre\u00e7o que a demanda de investimento e de bancos centrais. A quest\u00e3o central, disse, \u00e9 quem substituir\u00e1 o d\u00f3lar como reserva de valor. Entre o ouro, o yuan e as criptomoedas, ele se disse mais propenso ao ouro, por sua caracter\u00edstica intr\u00ednseca de escassez, mas ponderou que \u00e9 dif\u00edcil apostar contra o d\u00f3lar e que muito do cen\u00e1rio atual est\u00e1 ligado ao governo Trump, cujo futuro ser\u00e1 testado nas elei\u00e7\u00f5es de meio de mandato, em novembro. Ele lembrou ainda que a China tem acelerado as compras de ouro por seu banco central.<\/p>\n<h2>Um ano de manchetes e a velocidade poss\u00edvel<\/h2>\n<p>O segundo painel foi moderado por Camilo Farace, administrador com especializa\u00e7\u00e3o no Brasil, na \u00c1frica do Sul, na Fran\u00e7a e nos Estados Unidos, 40 anos de setor mineral, ex-membro do Ibram e da Fiemg, ex-presidente da Funda\u00e7\u00e3o Renova e conselheiro de Brasil Mineral. Farace trabalhou 32 anos na AngloGold Ashanti, de quem foi presidente no Brasil.<\/p>\n<p>Ele abriu o painel com uma colet\u00e2nea de manchetes publicadas pela Brasil Mineral nos \u00faltimos 12 meses, entre elas a meta da G Mining de chegar a 500 mil on\u00e7as em tr\u00eas anos, a produ\u00e7\u00e3o trimestral recorde da Serabi em cinco anos, a revela\u00e7\u00e3o de Nova Xavantina, da Ero, como a mina de maior teor do pa\u00eds, a venda de minas da Equinox Gold \u00e0 CMOC por US$ 1 bilh\u00e3o, o plano da Hochschild de investir at\u00e9 US$ 225 milh\u00f5es em 2026, a aquisi\u00e7\u00e3o de um novo projeto pela PA Gold, a produ\u00e7\u00e3o recorde de Jacobina, o avan\u00e7o da Australian Mines em Boa Vista, o IPO da Amap\u00e1 Minerals e, na v\u00e9spera do evento, uma nova capta\u00e7\u00e3o da Aura. Pelos c\u00e1lculos de Farace, as cerca de 600 mil on\u00e7as produzidas por Paracatu equivalem hoje a uma receita da ordem de US$ 2,5 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Em seguida, Farace mostrou a curva de produ\u00e7\u00e3o da AngloGold Ashanti, que opera de forma cont\u00ednua no Brasil desde 1834, primeiro como Saint John d&#8217;el Rey Mining Company, depois como Minera\u00e7\u00e3o Morro Velho e, por fim, sob a marca atual. A empresa j\u00e1 produziu cerca de 30 milh\u00f5es de on\u00e7as no pa\u00eds. O moderador pediu que levantassem a m\u00e3o os presentes que contribu\u00edram, direta ou indiretamente, para esse n\u00famero, e boa parte da sala se manifestou. Farace disse se incomodar sempre que ouve que &#8220;minera\u00e7\u00e3o s\u00f3 d\u00e1 uma safra&#8221;. &#8220;Aten\u00e7\u00e3o: essa \u00e9 a primeira da AngloGold. O que vem pela frente, com certeza, s\u00e3o grandes outras oportunidades.&#8221;<\/p>\n<p>Ao apresentar a produ\u00e7\u00e3o das empresas que operaram no pa\u00eds desde 2000, o moderador contestou a ideia de que o Brasil \u00e9 necessariamente lento. Ele perguntou \u00e0 plat\u00e9ia quanto tempo a G Mining levou entre a obten\u00e7\u00e3o da licen\u00e7a de instala\u00e7\u00e3o e a primeira on\u00e7a em Tocantinzinho, e a resposta veio de representantes da empresa: 23 meses. Leonardo Guimar\u00e3es Oliveira contou que a PA Gold entrou no projeto em 2011, fez 45 mil metros de sondagem, obteve a licen\u00e7a de instala\u00e7\u00e3o em 2021 e produziu a primeira barra em mar\u00e7o de 2023, depois de tr\u00eas anos de implanta\u00e7\u00e3o. &#8220;A despeito da informa\u00e7\u00e3o do Gilberto n\u00e3o estar inadequada para o cen\u00e1rio global, podem ter certeza de que nesse pa\u00eds \u00e9 poss\u00edvel produzir com velocidade e agilidade tamb\u00e9m&#8221;, disse Farace.<\/p>\n<p>O moderador lembrou ainda a trajet\u00f3ria de Jacobina, na Bahia. A opera\u00e7\u00e3o foi implantada pela Morro Velho, fechada anos depois por conta do contexto da \u00e9poca e vendida pela Anglo American. Ficou paralisada por alguns anos, foi retomada pela Yamana e, desde 2005, cresce continuamente, produzindo hoje quase 200 mil on\u00e7as, pela Pan American Silver. &#8220;Se em determinado per\u00edodo ela foi considerada invi\u00e1vel, hoje produz quase 200 mil on\u00e7as e ainda tem um futuro grande pela frente. A conjuntura \u00e9 altamente determinante daquilo que a gente pode produzir.&#8221; Ele destacou tamb\u00e9m o papel da Yamana, que chegou a produzir em m\u00e9dia mais de 400 mil on\u00e7as por ano, incluindo o ouro de Chapada.<\/p>\n<h2>O paradoxo da produ\u00e7\u00e3o e a margem recorde<\/h2>\n<p>O moderador apontou um paradoxo na curva agregada. A produ\u00e7\u00e3o brasileira cresceu de forma expressiva entre 2007 e 2016, per\u00edodo em que o pre\u00e7o n\u00e3o era t\u00e3o atrativo e em que o setor &#8220;penou&#8221; com a queda de 2011 e 2012. Os projetos feitos naquela \u00e9poca sustentaram o crescimento seguinte. Agora, no momento de pre\u00e7os mais favor\u00e1veis, os dados oficiais, baseados na arrecada\u00e7\u00e3o da CFEM (Contribui\u00e7\u00e3o Financeira pela Explora\u00e7\u00e3o Mineral), mostram queda. Farace preferiu n\u00e3o opinar sobre se esse recuo \u00e9 real, deixando a avalia\u00e7\u00e3o a cada um.<\/p>\n<p>Com dados do World Gold Council publicados pela Brasil Mineral, ele mostrou que, no primeiro trimestre de 2025, o custo m\u00e9dio de produ\u00e7\u00e3o foi de cerca de US$ 1.539 por on\u00e7a, contra pre\u00e7o m\u00e9dio de US$ 2.854. No primeiro trimestre de 2026, mesmo com custos maiores, a margem chegou \u00e0 ordem de US$ 3.000 por on\u00e7a. &#8220;\u00c9 um ambiente de alta favorabilidade. Por\u00e9m, se n\u00e3o tivermos ju\u00edzo para tomar a decis\u00e3o de implantar um projeto de ouro, podemos cair numa situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil.&#8221;<\/p>\n<h2>PA Gold: crescer comprando o que j\u00e1 \u00e9 conhecido<\/h2>\n<p>Leonardo Guimar\u00e3es Oliveira, da PA Gold, informou que iniciou sua carreira h\u00e1 13 anos como auxiliar de mec\u00e2nico no p\u00e1tio de manuten\u00e7\u00e3o da PH Intralog\u00edstica, empresa da fam\u00edlia, tornou-se gerente-geral de opera\u00e7\u00f5es da PA Gold aos 21 anos e hoje \u00e9 acionista e presidente do conselho de administra\u00e7\u00e3o da empresa. Ele descreveu a mina Para\u00edba, em Peixoto de Azevedo, no norte de Mato Grosso, uma mina subterr\u00e2nea mecanizada em veios estreitos, com planta pr\u00f3pria e produ\u00e7\u00e3o de 35 mil on\u00e7as por ano. Cerca de 60% da produ\u00e7\u00e3o sai em bullion, pela rota de gravimetria, 40% em concentrado de ouro e cobre. A empresa implanta um circuito CIL que deve elevar a recupera\u00e7\u00e3o global de 90% para 95% ou 96%. A reserva atual \u00e9 de 550 mil on\u00e7as.<\/p>\n<h2>Pre\u00e7o recorde p\u00f5e \u00e0 prova a capacidade do Brasil de transformar recurso em mina<\/h2>\n<p><em>&#8220;Todo mundo est\u00e1 brigando com todo mundo de foice, um tomando o funcion\u00e1rio do outro. No final, vai ter muita empresa e pouca m\u00e3o de obra.&#8221;<\/em>\u2014 Leonardo Guimar\u00e3es Oliveira, PA Gold<\/p>\n<p>No fim do ano passado, a PA Gold fez sua primeira aquisi\u00e7\u00e3o: o projeto Sert\u00e3o, em Faina (GO), antiga mina operada pela Troy. A meta, que Oliveira classificou como &#8220;um pouco ambiciosa&#8221;, \u00e9 chegar a 150 mil on\u00e7as anuais at\u00e9 2032, com tr\u00eas ativos de 50 mil on\u00e7as cada: Para\u00edba ampliada, a mina Sert\u00e3o e um terceiro projeto que ainda est\u00e1 sendo buscado. &#8220;Acreditamos que o Brasil tem uma geologia excelente, pouco explorada, e queremos fazer parte dessa mudan\u00e7a, colocando novos projetos em opera\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Perguntado sobre o perfil dos ativos que procura, ele disse que a PA Gold n\u00e3o se v\u00ea como desenvolvedora de projetos greenfield, que exigem mais tempo e risco. &#8220;Fazer uma sondagem para descobrir \u00e9 diferente de fazer uma sondagem de adensamento.&#8221; Como a empresa j\u00e1 opera, precisa aproveitar o pre\u00e7o alto pelo maior tempo poss\u00edvel. Busca projetos semelhantes ao que j\u00e1 tem, com reserva comprovada entre 150 mil e 200 mil on\u00e7as e potencial de 600 mil a 700 mil on\u00e7as. &#8220;N\u00e3o queremos dar um passo maior que a perna neste momento.&#8221;<\/p>\n<h2>Ero: teor alto e mina adolescente<\/h2>\n<p>Eduardo De Come, vice-presidente executivo da Ero Brasil, que foi CFO da companhia de 2013 a 2022, tem mais de 30 anos de experi\u00eancia em gest\u00e3o financeira, 17 deles em empresas de commodities como agroneg\u00f3cio, biocombust\u00edveis e minera\u00e7\u00e3o. \u00c9 economista e mestre em finan\u00e7as pela USP, com MBA pela Universidade de Manchester.<\/p>\n<p>De Come apresentou a opera\u00e7\u00e3o de Nova Xavantina (MT), que pertencia \u00e0 antiga Minera\u00e7\u00e3o Cara\u00edba. Comparada aos grandes players presentes, disse, \u00e9 &#8220;uma adolescente&#8221;, com 13 anos de opera\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de 60 mil on\u00e7as por ano. O teor alto garante boa lucratividade, e as reservas asseguram mais dez a 12 anos de opera\u00e7\u00e3o. No ano passado, por raz\u00f5es de moderniza\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a, a mina trocou a lavra manual (adequada aos veios estreitos mas que expunha as pessoas a maior risco), por lavra mecanizada, gra\u00e7as \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o dos equipamentos. A planta tem capacidade ociosa, e o foco agora \u00e9 geologia, para ampliar reservas e produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sobre a atratividade do Brasil, De Come dividiu a resposta em duas partes. A primeira \u00e9 o pr\u00f3prio ouro: a incerteza global, o papel de reserva de valor e a recomposi\u00e7\u00e3o de reservas pelos bancos centrais sustentam o pre\u00e7o, e ele n\u00e3o v\u00ea uma volta ao patamar anterior no curto prazo. A segunda \u00e9 o pa\u00eds. A geologia pouco explorada \u00e9 um trunfo, com jurisdi\u00e7\u00f5es tradicionais como Minas Gerais, Bahia e Par\u00e1 e \u00e1reas novas ganhando express\u00e3o, como Mato Grosso e Amap\u00e1. H\u00e1 uma cadeia de valor estabelecida, de fornecedores de geologia a empresas de engenharia, e universidades como Ouro Preto, a UFMG e a Poli-USP, que s\u00e3o refer\u00eancias mundiais. E h\u00e1 estabilidade: apesar de taxas estaduais pontuais e da demora no licenciamento, a democracia est\u00e1vel e as rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas colocam o pa\u00eds em boa posi\u00e7\u00e3o. &#8220;Quem est\u00e1 aqui dentro pode falar mal, mas para quem est\u00e1 de fora temos que equilibrar. Se o pre\u00e7o alto atrai o investidor para o ouro, a estabilidade atrai para o ouro no Brasil.&#8221;<\/p>\n<p>Farace endossou a avalia\u00e7\u00e3o, dizendo-se &#8220;mineiro tr\u00eas vezes&#8221;: brasileiro, mineiro e atleticano. Contou j\u00e1 ter ouvido de investidores estrangeiros certa avers\u00e3o a vir para o Brasil e defendeu que o setor precisa se comunicar melhor l\u00e1 fora, j\u00e1 que boa parte do capital de risco ainda vem do exterior. Ele considerou um inc\u00f4modo o pa\u00eds ocupar hoje a 14\u00aa posi\u00e7\u00e3o entre os produtores mundiais de ouro, depois de j\u00e1 ter sido o quinto.<\/p>\n<p>Edvaldo Amaral, engenheiro de minas, country manager da Pan American Silver Brasil desde 2023, com 33 anos de experi\u00eancia nas ind\u00fastrias qu\u00edmica e de minera\u00e7\u00e3o, presidente do Sindicato da Ind\u00fastria Mineral da Bahia (Sindimiba) e diretor suplente da Fieb, contou que Jacobina passou para a Pan American em 2023, com a compra de parte dos ativos da Yamana. A Pan American \u00e9 uma mineradora de prata, mas, como a prata est\u00e1 muito associada ao ouro, as aquisi\u00e7\u00f5es costumam trazer minas de ouro junto. &#8220;At\u00e9 hoje o pessoal ainda fala Morro Velho, \u00e9 dif\u00edcil tirar da cabe\u00e7a da turma&#8221;, brincou. A minera\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o vem do s\u00e9culo XVII, e Jacobina abrigou a primeira casa da moeda do pa\u00eds, embora, lamentou, o Brasil n\u00e3o tenha cultura de preservar esse patrim\u00f4nio.<\/p>\n<p>Dos cerca de 6 milh\u00f5es de on\u00e7as de ouro nos recursos da Pan American, divulgados no m\u00eas do evento, Jacobina responde por metade. O invent\u00e1rio mineral da opera\u00e7\u00e3o \u00e9 de 8 milh\u00f5es de on\u00e7as, com 3 milh\u00f5es em reservas. O dep\u00f3sito mergulha e \u00e9 cortado por uma intrusiva, e em algumas minas, como Morro do Vento e Canavieiras, a empresa j\u00e1 encontrou continuidade do outro lado. &#8220;D\u00e1 para a gente se aposentar aqui, filhos, netos.&#8221; A opera\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 dif\u00edcil: teor de 1,7 grama por tonelada, baixo para uma mina subterr\u00e2nea, min\u00e9rio altamente abrasivo, a ponto de a broca precisar ser trocada a cada 20 metros perfurados e o revestimento do moinho a cada 15 dias, e cinco minas em opera\u00e7\u00e3o ao longo de quase 14 quil\u00f4metros de strike. A barragem de rejeitos tem vida \u00fatil de mais oito anos. A empresa j\u00e1 pediu licen\u00e7a para empilhamento a seco e come\u00e7a a estudar o uso de pasta no enchimento, o que permitir\u00e1 aproveitar mais as reservas.<\/p>\n<p>Sobre seguran\u00e7a jur\u00eddica e licenciamento, Amaral lembrou que em muitas cidades as mineradoras est\u00e3o praticamente dentro da \u00e1rea urbana: em Jacobina, a comunidade \u00e9 &#8220;porta a porta&#8221; com a opera\u00e7\u00e3o. Cabe \u00e0s empresas fazer o dever de casa para conviver de forma harm\u00f4nica com a sociedade. Para ele, o agroneg\u00f3cio faz um bom trabalho de comunica\u00e7\u00e3o, e a minera\u00e7\u00e3o &#8220;precisa mostrar mais a cara&#8221;, papel que tenta cumprir no Sindimiba (sindicato que congrega as empresas de minera\u00e7\u00e3o do estado da Bahia). Ele disse que as dificuldades regulat\u00f3rias n\u00e3o s\u00e3o exclusivas do Brasil, mas previu que a discuss\u00e3o sobre minerais cr\u00edticos pode ser um divisor de \u00e1guas. &#8220;O cavalo est\u00e1 passando e a gente tem que montar nele. Se perdermos essa oportunidade, n\u00e3o s\u00f3 no ouro, mas tamb\u00e9m em terras raras, vai ser ruim.&#8221; Na avalia\u00e7\u00e3o dele, o pr\u00f3ximo ano deve ser muito favor\u00e1vel \u00e0 minera\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, desde que governo, empresas e investidores trabalhem por seguran\u00e7a jur\u00eddica e licenciamento mais \u00e1gil.<\/p>\n<p>Farace concordou e lembrou que, at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo, era um inc\u00f4modo para o setor procurar o Minist\u00e9rio de Minas e Energia e encontrar no primeiro escal\u00e3o pessoas que n\u00e3o conheciam a minera\u00e7\u00e3o. Hoje, disse, o setor ocupa um espa\u00e7o de relev\u00e2ncia que n\u00e3o tinha.<\/p>\n<h2>O gargalo da m\u00e3o de obra<\/h2>\n<p>Perguntado sobre os desafios de infraestrutura e log\u00edstica, Oliveira disse que o maior problema da PA Gold s\u00e3o as pessoas. Uma empresa nova, de 35 mil on\u00e7as, compete por profissionais com opera\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas a grandes centros, onde h\u00e1 shopping e lazer no fim de semana. No n\u00edvel operacional, a concorr\u00eancia \u00e9 o garimpo: um operador de caminh\u00e3o no garimpo da regi\u00e3o pode ganhar R$ 15 mil por m\u00eas. A empresa aposta na capacita\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra local, num plano de remunera\u00e7\u00e3o vari\u00e1vel acima do mercado e em alternativas como o trabalho remoto para algumas fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na opera\u00e7\u00e3o, o gargalo s\u00e3o as pe\u00e7as. Oliveira admitiu que a empresa, como estreante, errou ao n\u00e3o formar estoques robustos e &#8220;passou muito aperto&#8221; nos dois primeiros anos. O prazo entre a requisi\u00e7\u00e3o e a chegada de uma pe\u00e7a \u00e9 de 32 dias. Ele acrescentou um dado que agrava a disputa: seis minas subterr\u00e2neas est\u00e3o sendo abertas no pa\u00eds neste ano, e operadores de equipamentos como jumbo e Simba levam mais tempo para serem formados. &#8220;Do jeito que o mercado est\u00e1, todo mundo est\u00e1 brigando com todo mundo de foice, um tomando o funcion\u00e1rio do outro. No final, vai ter muita empresa e pouca m\u00e3o de obra.&#8221; Ele prop\u00f4s que as empresas do setor se unam para criar escolas, o que, sem sua vis\u00e3o, beneficiaria tamb\u00e9m a sociedade.<\/p>\n<p>De Come contou que a Ero enfrenta as mesmas dificuldades em suas tr\u00eas minas, no interior do Par\u00e1, no sert\u00e3o da Bahia e no interior de Mato Grosso. Antigamente, disse, quem se formava em engenharia de minas ou geologia sabia que trabalharia em \u00e1rea remota, e um bom sal\u00e1rio resolvia. Hoje, o profissional quer saber como vai se desenvolver, que tipo de lideran\u00e7a ter\u00e1, se haver\u00e1 escola e lazer para a fam\u00edlia e se conseguir\u00e1 ficar conectado. &#8220;Se voc\u00ea vai para um lugar que n\u00e3o tem Wi-Fi nem sinal de celular, o cara fica louco.&#8221; A minera\u00e7\u00e3o, que historicamente tem a imagem de uma ind\u00fastria mais bruta, precisa de lideran\u00e7as mais preparadas. E disputa talentos com a engenharia de computa\u00e7\u00e3o, impulsionada pelos investimentos em intelig\u00eancia artificial, e com o pr\u00f3prio mercado financeiro da Faria Lima. Para ele, a sa\u00edda passa por parcerias com universidades e com o Senai e pela forma\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra local, que j\u00e1 aceita o ambiente em que vai trabalhar. &#8220;N\u00e3o \u00e9 porque a regi\u00e3o \u00e9 remota que a carreira tem que ser remota. Se ficarmos focados s\u00f3 em sal\u00e1rio, os poucos que existem v\u00e3o ganhar cada vez mais, mas n\u00e3o vai resolver o problema da ind\u00fastria.&#8221;<\/p>\n<p><em>&#8220;N\u00e3o \u00e9 porque a regi\u00e3o \u00e9 remota que a carreira tem que ser remota.&#8221;<\/em>\u2014 Eduardo De Come, Ero Brasil<\/p>\n<p>Farace trouxe dados do MEC segundo os quais o n\u00famero de ingressantes em Engenharia de Minas e Geologia caiu de 32 mil em 2013 para 7 mil em 2024. &#8220;N\u00f3s vamos ter que usar bastante intelig\u00eancia artificial no planejamento de mina, onde antes voc\u00ea usava dez ou 15 engenheiros, para ter um fazendo a revis\u00e3o, porque no estoque dificilmente vamos encontrar esse profissional dispon\u00edvel.&#8221;<\/p>\n<p>Amaral acrescentou que a situa\u00e7\u00e3o de Jacobina \u00e9 ainda mais cr\u00edtica. Um levantamento interno indica que cerca de 400 operadores devem se aposentar at\u00e9 2030, o que obriga a empresa a prever 150 contrata\u00e7\u00f5es extras j\u00e1 no or\u00e7amento do pr\u00f3ximo ano. O programa Dissemina, de forma\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra, capacita 160 mulheres da comunidade, e a empresa j\u00e1 tem operadoras de fandrill e jumbo e supervisoras.<\/p>\n<p>No encerramento do painel, De Come apontou um problema estrutural: a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista da minera\u00e7\u00e3o, que Farace lembrou ser de 1936. Segundo De Come, o Brasil \u00e9 o \u00fanico entre as dez maiores economias em que n\u00e3o se pode trabalhar em turnos de 12 horas no subsolo. Enquanto outros pa\u00edses usam dois operadores por jumbo, o Brasil precisa de quatro, porque a jornada termina em seis horas. O trabalhador tamb\u00e9m \u00e9 obrigado a se aposentar cedo, mesmo estando saud\u00e1vel. Ele defendeu que a atualiza\u00e7\u00e3o dessa legisla\u00e7\u00e3o, combinada com automa\u00e7\u00e3o, opera\u00e7\u00e3o remota e equipamentos semi aut\u00f4nomos, tornaria o pa\u00eds ainda mais competitivo, e lembrou que o potencial brasileiro vai al\u00e9m do ni\u00f3bio, do l\u00edtio e das terras raras.<\/p>\n<p>Farace fez um alerta sobre a disputa salarial sem coordena\u00e7\u00e3o: &#8220;J\u00e1 vimos esse filme antes. O pre\u00e7o do ouro j\u00e1 bateu em US$ 1.900 e voltou a US$ 1.050. Quando vivenciamos esse ciclo, doeu profundamente na carne de todos n\u00f3s. Competir por m\u00e3o de obra \u00e9 salutar, mas tem limite.&#8221; Ele defendeu uma a\u00e7\u00e3o coordenada do setor para forma\u00e7\u00e3o de profissionais.<\/p>\n<h2>Ouro ilegal e disciplina de custo<\/h2>\n<p>Farace tamb\u00e9m pediu a Amaral que falasse sobre rastreabilidade e compliance. Segundo o executivo, as estat\u00edsticas indicam que quase 40% do ouro produzido no pa\u00eds \u00e9 ilegal. &#8220;A gente, que \u00e9 legalista, demora um certo prazo para ter o licenciamento, e a pessoa abre um garimpo, mete o trator, derruba tudo e come\u00e7a a produzir e vender, com custo baixo.&#8221; Empresas listadas em bolsa cumprem todas as exig\u00eancias e, mesmo assim, \u00e0s vezes caem no canal vermelho da Receita Federal e esperam um m\u00eas pela libera\u00e7\u00e3o de uma venda. Por isso, Jacobina buscou a certifica\u00e7\u00e3o de Operador Econ\u00f4mico Autorizado (OEA). A empresa tamb\u00e9m abriu as portas \u00e0 Pol\u00edcia Federal, que mapeou todo o seu min\u00e9rio, da mina ao bullion, para compor o banco de dados do &#8220;DNA do ouro&#8221;, que permite identificar a origem do metal apreendido em opera\u00e7\u00f5es. Amaral recomendou que outras mineradoras fa\u00e7am o mesmo.<\/p>\n<p>Nas mensagens finais, Oliveira alertou os investidores contra a fixa\u00e7\u00e3o no pre\u00e7o da commodity. &#8220;Recurso n\u00e3o \u00e9 reserva, e reserva tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 dinheiro. A verdadeira reserva \u00e9 aquilo que voc\u00ea consegue extrair da terra com resultado. N\u00e3o adianta ter um projeto de 2 ou 3 milh\u00f5es de on\u00e7as se o custo operacional dele \u00e9 de US$ 3.000 a on\u00e7a.&#8221; O pre\u00e7o atual, disse, \u00e9 passageiro. A PA Gold avalia seus projetos com o ouro a US$ 3.000: se o projeto se sustentar nesse patamar, o que vier acima \u00e9 lucro.<\/p>\n<p><em>&#8220;Recurso n\u00e3o \u00e9 reserva, e reserva tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 dinheiro. A verdadeira reserva \u00e9 aquilo que voc\u00ea consegue extrair da terra com resultado.&#8221;<\/em>\u2014 Leonardo Guimar\u00e3es Oliveira, PA Gold<\/p>\n<p>Amaral foi na mesma linha. &#8220;A gente n\u00e3o controla d\u00f3lar nem pre\u00e7o da on\u00e7a de ouro. Controlamos custo.&#8221; Ele defendeu custos abaixo de US$ 2.000 a on\u00e7a e disse que &#8220;custo \u00e9 igual a unha: tem que estar cortando todo dia&#8221;. E lembrou que o presidente global da Pan American j\u00e1 se preocupava, dois ou tr\u00eas anos atr\u00e1s, com a escalada de gastos que o pre\u00e7o alto estimula, e que, na primeira pequena queda, &#8220;todo mundo entra no desespero&#8221;. Ainda assim, ponderou, o gestor n\u00e3o pode deixar de investir. A Pan American, disse, combina pagamento de dividendos com crescimento org\u00e2nico.<\/p>\n<h2>O garimpo como realidade territorial<\/h2>\n<p>O terceiro painel foi moderado por Adriano Trindade, advogado e mestre em Direito e Pol\u00edtica dos Recursos Naturais, especialista em regula\u00e7\u00e3o e ESG no setor mineral. Participaram Othon de Villefort Maia, vice-presidente de Sustentabilidade e Assuntos Corporativos da AngloGold Ashanti, jornalista pela UFMG com MBA executivo pela Funda\u00e7\u00e3o Dom Cabral e forma\u00e7\u00e3o em comunica\u00e7\u00e3o corporativa pela Syracuse University; Isadora Machado e Castro, engenheira ambiental e coordenadora de projetos da Integratio, com quase dez anos de experi\u00eancia em gest\u00e3o socioambiental, desenvolvimento territorial e licenciamento; Eduardo Le\u00e3o, ge\u00f3logo, mestre em geologia com MBA pela Funda\u00e7\u00e3o Dom Cabral, ex-diretor da Ag\u00eancia Nacional de Minera\u00e7\u00e3o, ex-secret\u00e1rio de Desenvolvimento Econ\u00f4mico, Minera\u00e7\u00e3o e Energia do Par\u00e1 e atual dirigente da G Mining no Brasil; e Filipe Coelho, p\u00f3s-graduado em com\u00e9rcio exterior pela Faap, com mais de 15 anos em log\u00edstica e com\u00e9rcio exterior, diretor da Brink&#8217;s.<\/p>\n<p>Adriano Trindade pediu a Isadora Castro que trouxesse a perspectiva social para um debate que costuma girar em torno de tecnologia, efici\u00eancia, meio ambiente f\u00edsico e rastreabilidade, ainda mais porque muitos projetos de ouro est\u00e3o em regi\u00f5es de garimpo. A engenheira partiu de uma premissa: o territ\u00f3rio onde um projeto chega nunca \u00e9 vazio: tem pessoas e uma din\u00e2mica pr\u00f3pria.<\/p>\n<h2>Pre\u00e7o recorde p\u00f5e \u00e0 prova a capacidade do Brasil de transformar recurso em mina<\/h2>\n<p><em>&#8220;A popula\u00e7\u00e3o entende como benef\u00edcio aquilo que o empreendedor faz al\u00e9m da obriga\u00e7\u00e3o legal dele.&#8221;<\/em>\u2014 Isadora Machado e Castro, Integratio<\/p>\n<p>No setor mineral, disse, \u00e9 muito comum encontrar o garimpo informal. A rea\u00e7\u00e3o habitual do empreendedor \u00e9 enxerg\u00e1-lo apenas como ilegalidade e tentar retir\u00e1-lo, com a ideia de estar fazendo um bem ambiental. Mas, em muitos desses territ\u00f3rios, o garimpo \u00e9 a principal atividade econ\u00f4mica, a base do emprego e do com\u00e9rcio local. &#8220;A ideia n\u00e3o \u00e9 simplesmente tirar aquele garimpo dali, porque isso vai causar um novo problema social, se \u00e9 que vai conseguir. E, se n\u00e3o conseguir, isso muitas vezes vai travar o licenciamento.&#8221; O caminho, defendeu, \u00e9 reduzir a informalidade: conhecer o territ\u00f3rio, entender suas din\u00e2micas e negociar como a empresa pode contribuir, com estudos ou investimento, para que a popula\u00e7\u00e3o continue na atividade de forma regular.<\/p>\n<p>O exemplo citado foi o projeto Gurupi, no Maranh\u00e3o, onde a Integratio elabora o estudo socioecon\u00f4mico do EIA-Rima para a G Mining. O propriet\u00e1rio anterior optou pelo embate com os garimpeiros num territ\u00f3rio cuja economia gira em torno da atividade, que ali &#8220;j\u00e1 virou cultura&#8221;. O resultado foi o licenciamento travado por anos. A G Mining chegou com outra abordagem, buscando conhecer o territ\u00f3rio e tratar o garimpo como potencial parceiro, e, segundo Isadora, j\u00e1 colhe frutos. &#8220;N\u00e3o \u00e9 um caminho f\u00e1cil, mas \u00e9 um caminho poss\u00edvel.&#8221;<\/p>\n<p>Mais adiante, perguntada sobre como administrar as expectativas das comunidades, Isadora apontou tr\u00eas pilares. O primeiro \u00e9 conhecer a popula\u00e7\u00e3o: seu grau de instru\u00e7\u00e3o, escolaridade e qualifica\u00e7\u00e3o. O segundo \u00e9 ser transparente sobre as limita\u00e7\u00f5es e desafios do empreendimento. O terceiro \u00e9 construir harmonia. Ela alertou contra o h\u00e1bito de superestimar benef\u00edcios, como a gera\u00e7\u00e3o de empregos. &#8220;Voc\u00ea sabe se o pessoal ali quer ser empregado na minera\u00e7\u00e3o? Se tem escolaridade para isso?&#8221; O garimpeiro, lembrou, ganha em uma semana o que n\u00e3o ganharia em um m\u00eas numa mineradora formal. Promessas que n\u00e3o podem ser cumpridas geram frustra\u00e7\u00e3o, e reverter uma frustra\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais dif\u00edcil do que construir confian\u00e7a desde o in\u00edcio. Ela lembrou ainda que muito do que as empresas divulgam como benef\u00edcio \u00e9 apenas obriga\u00e7\u00e3o legal. &#8220;A popula\u00e7\u00e3o entende como benef\u00edcio aquilo que o empreendedor faz al\u00e9m da obriga\u00e7\u00e3o legal dele.&#8221;<\/p>\n<h2>A agilidade de uma mid-tier<\/h2>\n<p>Adriano Trindade perguntou a Eduardo Le\u00e3o como uma empresa de menor porte concilia a necessidade de avan\u00e7ar r\u00e1pido com o tempo exigido pela interlocu\u00e7\u00e3o social e pelo licenciamento. Le\u00e3o disse que a G Mining est\u00e1 deixando de ser uma j\u00fanior para se tornar uma mid-tier. Tocantinzinho, no Par\u00e1, deve chegar perto de 200 mil on\u00e7as neste ano, e a opera\u00e7\u00e3o na Guiana deve come\u00e7ar no segundo semestre do pr\u00f3ximo ano com capacidade de 350 mil on\u00e7as anuais. Tendo trabalhado em grandes empresas, ele disse que a estrutura matricial e o peso organizacional das majors muitas vezes n\u00e3o acompanham o ritmo de um relacionamento com garimpeiros.<\/p>\n<p>Le\u00e3o contou que j\u00e1 trabalhou em dois setores marginalizados, o madeireiro e o do ouro. &#8220;Tenho amigos em Bel\u00e9m que, quando falo que trabalho com ouro, pensam que sou garimpeiro.&#8221; No Gurupi, lembrou, h\u00e1 vest\u00edgios de garimpo desde o s\u00e9culo XVII, com empresas do Brasil col\u00f4nia enviando ouro para Portugal, e nunca houve uma iniciativa de legaliza\u00e7\u00e3o. &#8220;Nunca ensinaram eles a se legalizar.&#8221; Como ex-dirigente da ANM, disse conhecer os custos e os caminhos que esses grupos n\u00e3o sabem percorrer.<\/p>\n<p>A G Mining concedeu anu\u00eancia a uma cooperativa de cerca de 200 garimpeiros que trabalha no sapr\u00f3lito, dentro da \u00e1rea da futura cava. A empresa far\u00e1 todo o monitoramento ambiental e o doar\u00e1 \u00e0 cooperativa e assumir\u00e1 o plano de recupera\u00e7\u00e3o da \u00e1rea, j\u00e1 que o local ser\u00e1 incorporado \u00e0 cava. O material tratado pelos garimpeiros tamb\u00e9m ser\u00e1 beneficiado na planta da mineradora. Com a anu\u00eancia, a cooperativa obteve em dois meses a licen\u00e7a ambiental na Secretaria de Meio Ambiente do Maranh\u00e3o, e agora o pedido de permiss\u00e3o de lavra garimpeira (PLG) est\u00e1 em an\u00e1lise na ANM. &#8220;Pasmem: est\u00e3o l\u00e1 h\u00e1 d\u00e9cadas e nunca fizeram um pedido de PLG.&#8221; Para ele, n\u00e3o h\u00e1 concorr\u00eancia: o sapr\u00f3lito que os garimpeiros exploram n\u00e3o faz parte da reserva da empresa. A estrutura enxuta, disse, fez diferen\u00e7a. Entre a conversa com os garimpeiros, o aval do CEO global e a aprova\u00e7\u00e3o do conselho, passaram-se cinco dias.<\/p>\n<h2>Pre\u00e7o recorde p\u00f5e \u00e0 prova a capacidade do Brasil de transformar recurso em mina<\/h2>\n<p><em>&#8220;Boicotar a Amaz\u00f4nia s\u00f3 traz problema. Se eu n\u00e3o comprar de l\u00e1, n\u00e3o vou ter dinheiro legal circulando, e a\u00ed eu garanto que a madeira n\u00e3o vai ficar em p\u00e9&#8221;<\/em>\u2014 Eduardo Le\u00e3o, G Mining<\/p>\n<h2>O desafio de operar na Amaz\u00f4nia<\/h2>\n<p>Mais adiante, Trindade perguntou a Le\u00e3o, nascido e criado em Bel\u00e9m, como \u00e9 operar no bioma amaz\u00f4nico. Ele disse que fazer uma mina no meio da floresta, cercada por mais de 2 mil pontos de garimpo, \u00e9 complexo, e que muita gente enxerga nisso um risco em si. Mas lembrou que Tocantinzinho, comprado da Eldorado, passou mais de 12 anos em pesquisa e est\u00e1 h\u00e1 dois em opera\u00e7\u00e3o sem que nenhum tiro tenha sido disparado. Ele reconheceu que h\u00e1 garimpos e garimpos: alguns ligados ao narcotr\u00e1fico, outros que nunca se regularizaram por n\u00e3o conhecer o caminho, como no Gurupi, e outros j\u00e1 legalizados, com PLG e licen\u00e7as ambientais.<\/p>\n<p>O maior desafio, disse, \u00e9 a infraestrutura escassa: sem estrada, linha de transmiss\u00e3o, energia ou hospital. A G Mining construiu 200 quil\u00f4metros de linha de transmiss\u00e3o com capacidade tr\u00eas vezes superior \u00e0 sua carga e a doou \u00e0 Equatorial, que a incorporou ao sistema nacional. Outras opera\u00e7\u00f5es podem se conectar a ela, como a da Cabral Gold, que come\u00e7ou a operar no Cui\u00fa-Cui\u00fa semanas antes do evento. A linha ainda tem problemas de suprimento, mas a empresa aprendeu a operar com eles: depois de uma queda de energia, hoje consegue religar a planta em 40 minutos, contra tr\u00eas ou quatro horas no in\u00edcio.<\/p>\n<p>Le\u00e3o fez uma cr\u00edtica direta ao Estado. A reserva garimpeira do Tapaj\u00f3s foi institu\u00edda na d\u00e9cada de 1980, mas, na d\u00e9cada de 2000, um mosaico de unidades de conserva\u00e7\u00e3o criado sem estudo preliminar sobrep\u00f4s cerca de 90% da reserva com \u00e1reas de uso restrito. Assim, garimpeiros passaram &#8220;do legal para o ilegal do dia para a noite&#8221;. Por isso, disse, iniciativas de anu\u00eancia fazem parte de uma responsabilidade maior. &#8220;Sou amaz\u00f4nida, moro e provavelmente vou morrer l\u00e1. A gente tem que fazer o desenvolvimento econ\u00f4mico da regi\u00e3o.&#8221; Ele lembrou que a minera\u00e7\u00e3o um dia vai acabar e que Itaituba tem 150 mil habitantes, enquanto a mina empregar\u00e1 cerca de 2 mil pessoas. O ouro legal, portanto, precisa alcan\u00e7ar a economia regional.<\/p>\n<p>Le\u00e3o contou ainda que a comunidade de Moraes de Almeida, onde h\u00e1 tamb\u00e9m manejo florestal sustent\u00e1vel, pressiona a empresa por uma subesta\u00e7\u00e3o de energia. A G Mining j\u00e1 levou o pleito \u00e0 Aneel e ao secret\u00e1rio nacional de energia, mas ele deixou claro o limite. &#8220;Eu n\u00e3o sou o Estado. N\u00e3o posso botar uma linha l\u00e1 e pagar essa conta.&#8221; Sua mensagem final foi: &#8220;Boicotar a Amaz\u00f4nia s\u00f3 traz problemas. Se eu n\u00e3o comprar de l\u00e1, n\u00e3o vou ter dinheiro legal circulando ali, e a\u00ed eu garanto para voc\u00eas que a madeira n\u00e3o vai ficar em p\u00e9.&#8221;<\/p>\n<h2>Autorregula\u00e7\u00e3o e cadeia certificada<\/h2>\n<p>Trindade pediu a Othon Maia que falasse sobre a ado\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es internacionais no Brasil. Maia disse que, mais do que como major, a AngloGold se v\u00ea como uma empresa que atravessou todas as mudan\u00e7as do pa\u00eds em 192 anos: sete constitui\u00e7\u00f5es, o Segundo Reinado, a Rep\u00fablica Velha e a Era Vargas. &#8220;Se a gente chegou at\u00e9 aqui, foi por um processo de adapta\u00e7\u00e3o e de entendimento de para onde esse mercado caminhou.&#8221;<\/p>\n<p>A empresa, explicou, acredita que a autorregula\u00e7\u00e3o \u00e9 mais ben\u00e9fica e precisa do que &#8220;andar a reboque da regula\u00e7\u00e3o&#8221;. Com opera\u00e7\u00f5es em 11 pa\u00edses, depender de 11 legisla\u00e7\u00f5es seria um risco para o neg\u00f3cio. E, quando a regula\u00e7\u00e3o vem depois de um problema, costuma chegar em dose inexata ou desalinhada com o que gera melhor resultado. A AngloGold segue os princ\u00edpios do World Gold Council e o guia de ouro respons\u00e1vel da LBMA, que certifica suas barras, entre dezenas de certifica\u00e7\u00f5es. O mais dif\u00edcil, disse, n\u00e3o \u00e9 adapt\u00e1-las ao Brasil, j\u00e1 que todas olham para os mesmos temas: pr\u00e1ticas trabalhistas, pr\u00e1ticas socioambientais, direitos humanos e respeito \u00e0s comunidades anfitri\u00e3s. O desafio \u00e9 a prolifera\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es. Por isso, ele v\u00ea com bons olhos a Consolidated Mining Standard Initiative, lan\u00e7ada pelo ICMM na \u00faltima Exposibram, que re\u00fane os padr\u00f5es do ICMM, do World Gold Council, da Copper Mark e o TSM da associa\u00e7\u00e3o canadense de minera\u00e7\u00e3o, simplificando a mensagem para acionistas, investidores e sociedade.<\/p>\n<p>Sobre o papel das majors na formaliza\u00e7\u00e3o de pequenas opera\u00e7\u00f5es, Maia explicou que, no Brasil, a empresa est\u00e1 100% concentrada no Quadril\u00e1tero Ferr\u00edfero, em Minas Gerais, regi\u00e3o com 300 anos de minera\u00e7\u00e3o, onde fica sua principal mina, em Sabar\u00e1, a mais profunda do pa\u00eds, no local onde Borba Gato descobriu ouro. A rela\u00e7\u00e3o com a minera\u00e7\u00e3o artesanal, portanto, n\u00e3o \u00e9 um tema material para as opera\u00e7\u00f5es brasileiras. O papel da empresa como \u00e2ncora de desenvolvimento local, por\u00e9m, \u00e9 central. A AngloGold nacionaliza mais de 90% das compras no Brasil, \u00edndice que, segundo ele, demonstra a capacidade industrial do pa\u00eds. Al\u00e9m disso, avalia 100% dos fornecedores, a montante e a jusante, por meio de um question\u00e1rio de sustentabilidade, com o objetivo de elevar a r\u00e9gua socioambiental de toda a cadeia. A empresa protege uma \u00e1rea de vegeta\u00e7\u00e3o nativa dez vezes maior que sua \u00e1rea operacional, majoritariamente de Mata Atl\u00e2ntica, mas tamb\u00e9m de Cerrado.<\/p>\n<h2>A log\u00edstica do ouro<\/h2>\n<p>Trindade perguntou a Filipe Coelho como a Brink&#8217;s &#8220;blinda&#8221; sua log\u00edstica contra a contamina\u00e7\u00e3o por ouro ilegal. Coelho disse que, embora a log\u00edstica tenha menos certifica\u00e7\u00f5es que a minera\u00e7\u00e3o, a Brink&#8217;s \u00e9 membro da LBMA e tem um de seus seis cofres autorizados. Os tr\u00eas principais s\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es financeiras, o Bank of England, o HSBC e o JPMorgan, e o maior cofre com cust\u00f3dia da LBMA fora do sistema financeiro \u00e9 da Brink&#8217;s. Isso obriga a empresa a replicar as boas pr\u00e1ticas da associa\u00e7\u00e3o em todas as suas unidades no mundo.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, a Brink&#8217;s n\u00e3o inicia nenhuma opera\u00e7\u00e3o sem visita presencial de uma equipe multidisciplinar. Coelho contou que a empresa recebe contatos de supostas mineradoras que alegam teores de 30 gramas por tonelada, pedem que o ouro seja coletado e oferecem como garantia &#8220;um laudo de um ge\u00f3logo&#8221;. &#8220;Isso n\u00e3o existe, porque certamente algu\u00e9m j\u00e1 teria comprado ou j\u00e1 estaria produzindo. A gente n\u00e3o pode aceitar essas informa\u00e7\u00f5es como verdade.&#8221;<\/p>\n<p>No Brasil, a Brink&#8217;s \u00e9 classificada como empresa de seguran\u00e7a privada e regulada pela Pol\u00edcia Federal. Por instru\u00e7\u00e3o normativa, comunica automaticamente ao Coaf toda opera\u00e7\u00e3o acima de R$ 100 mil, o que, no caso das mineradoras, significa praticamente todas as opera\u00e7\u00f5es. Com isso, o \u00f3rg\u00e3o pode cruzar essas informa\u00e7\u00f5es com notas fiscais e documentos de exporta\u00e7\u00e3o. Por lidar com armamento, blindagem e ve\u00edculos controlados, que n\u00e3o pode vender nem doar e precisa destruir ao fim da vida \u00fatil, a empresa \u00e9 auditada com frequ\u00eancia em suas 71 filiais no pa\u00eds.<\/p>\n<p>A Brink&#8217;s tamb\u00e9m tem a certifica\u00e7\u00e3o OEA. Coelho explicou que a Receita Federal n\u00e3o se limita a verificar documentos: passou dias na unidade da empresa entrevistando funcion\u00e1rios escolhidos aleatoriamente para verificar se entendiam sua responsabilidade em evitar a contamina\u00e7\u00e3o do processo. O foco da Receita, ressaltou, \u00e9 principalmente a exporta\u00e7\u00e3o de drogas e il\u00edcitos, e n\u00e3o o ouro ilegal, mas a certifica\u00e7\u00e3o garante que nada entre na cadeia sem declara\u00e7\u00e3o. Um caminh\u00e3o passa por 17 pontos de checagem. Coelho fez quest\u00e3o de distinguir: a OEA garante a integridade log\u00edstica, mas n\u00e3o a conformidade da origem do ouro, que continua sendo um desafio.<\/p>\n<p>Perguntado sobre como a empresa se adapta a realidades t\u00e3o diferentes, Coelho disse que a Brink&#8217;s transporta, em algum ponto da cadeia, cerca de 80% do ouro que entra no sistema da LBMA, das minas \u00e0s refinarias e, depois, aos cofres. Mas n\u00e3o existe uma opera\u00e7\u00e3o padr\u00e3o. H\u00e1 locais que o carro-forte n\u00e3o alcan\u00e7a, estradas intransit\u00e1veis na chuva e ve\u00edculos fora de estrada das mineradoras que a Brink&#8217;s n\u00e3o pode operar. Por isso, a log\u00edstica \u00e9 desenhada em conjunto com a equipe da mina, buscando o ponto mais pr\u00f3ximo da sala do ouro, porque o objetivo \u00e9 ficar o menor tempo poss\u00edvel na opera\u00e7\u00e3o. H\u00e1 coletas feitas em menos de 60 segundos. A sa\u00edda tamb\u00e9m precisa ser r\u00e1pida, j\u00e1 que as regi\u00f5es de minera\u00e7\u00e3o t\u00eam muitas zonas de sombra no caminho, &#8220;ao contr\u00e1rio de uma Bandeirantes (rodovia), com fluxo cont\u00ednuo e for\u00e7a policial&#8221;. Conforme o caso, a empresa usa avi\u00f5es, helic\u00f3pteros ou carros-fortes, e vigilantes acompanham a carga em todas as etapas, at\u00e9 o embarque no avi\u00e3o de exporta\u00e7\u00e3o. A \u00fanica etapa que n\u00e3o pode ser r\u00e1pida \u00e9 a aduaneira: o desembara\u00e7o leva cerca de oito horas no Brasil, contra tr\u00eas horas em outros pa\u00edses.<\/p>\n<h2>Fechamento de mina e rastreabilidade<\/h2>\n<p>Na rodada final, Trindade pediu a cada participante uma s\u00edntese de um minuto sobre o futuro do ouro respons\u00e1vel. Maia afirmou que a garantia de origem, j\u00e1 consolidada em setores como hortifr\u00fatis e vestu\u00e1rio, &#8220;veio para ficar&#8221; no ouro. A AngloGold, disse, \u00e9 a \u00fanica grande empresa com refinaria cativa no pa\u00eds, o que lhe permite ter toda a cadeia certificada, da pesquisa \u00e0 barra, antes de o ouro seguir pela Brink&#8217;s. Mas o conceito de ouro respons\u00e1vel precisa abranger todo o ciclo de vida da mina, incluindo o fechamento. Maia citou a mina origin\u00e1ria de 1834, em Nova Lima, cuja \u00e1rea, com cerca de 250 mil metros quadrados, no centro da cidade, est\u00e1 sendo transformada num bairro doado \u00e0 sociedade, com corredor cultural, n\u00facleos residenciais, mais de 25% de \u00e1rea de Mata Atl\u00e2ntica preservada e 19 galp\u00f5es hist\u00f3ricos restaurados.<\/p>\n<p>Isadora aproveitou o tema do fechamento para falar do meio socioecon\u00f4mico. Os benef\u00edcios de uma mina em opera\u00e7\u00e3o, como emprego, movimenta\u00e7\u00e3o da economia e arrecada\u00e7\u00e3o, podem se tornar um problema no fim, se o territ\u00f3rio ficar dependente do empreendimento e sofrer retrocesso econ\u00f4mico. Esse trabalho, disse, precisa come\u00e7ar desde j\u00e1, identificando voca\u00e7\u00f5es do territ\u00f3rio, como turismo, garimpo artesanal, com\u00e9rcio ou ind\u00fastria, para permitir uma transi\u00e7\u00e3o sem grandes perdas. &#8220;N\u00e3o \u00e9 pensar l\u00e1 no final, \u00e9 pensar no hoje.&#8221;<\/p>\n<p>Le\u00e3o levantou um tema que ainda n\u00e3o havia sido discutido: o projeto de lei de rastreabilidade do ouro em tramita\u00e7\u00e3o, que classificou como confuso, complexo e caro, com exig\u00eancias impratic\u00e1veis, como a marca\u00e7\u00e3o f\u00edsica do ouro por regi\u00e3o. Para ele, o texto aumenta o custo de quem j\u00e1 opera legalmente e arca com uma carga tribut\u00e1ria pr\u00f3xima de 20% na exporta\u00e7\u00e3o, mesmo sem ICMS, por for\u00e7a da Lei Kandir. Lembrou que o universo de novas minas nos pr\u00f3ximos cinco a dez anos \u00e9 limitado, enquanto cerca de 35 toneladas de ouro ainda deixam o pa\u00eds de forma ilegal todos os anos. &#8220;Como trazer essas 35 toneladas para a legalidade, para gerar riqueza, imposto e trabalho formal? Essa seria a minha contribui\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Coelho concordou. Segundo ele, a instabilidade jur\u00eddica e operacional leva empresas como a Brink&#8217;s a tomar decis\u00f5es conservadoras e a trabalhar apenas com mineradoras de origem comprovada. Com isso, cooperativas bem organizadas acabam prejudicadas, por perder parceiros, e muitos grupos que poderiam se formalizar n\u00e3o o fazem. &#8220;A PL traz burocracia, mas n\u00e3o resolve o principal, que \u00e9 a origem. O foco n\u00e3o \u00e9 diminuir a quantidade de ouro e sim resolver a quest\u00e3o da origem.&#8221; Ele contou que, num evento da opera\u00e7\u00e3o Ouro Alvo, da Pol\u00edcia Federal, no ano passado, foi dito que o ouro ilegal n\u00e3o deixou de existir, apenas migrou para a Venezuela e, depois da sa\u00edda de Maduro, para outros pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul. Mesmo com a queda nas exporta\u00e7\u00f5es brasileiras, disse, a extra\u00e7\u00e3o continua como estava dois ou tr\u00eas anos atr\u00e1s.<\/p>\n<h2>Garimpo organizado e descarboniza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Na rodada de perguntas, Gilson Camboim, coordenador nacional do cooperativismo mineral, apresentou-se como representante do garimpo legalizado, com permiss\u00e3o de lavra garimpeira, licen\u00e7a ambiental e recupera\u00e7\u00e3o de \u00e1reas degradadas. Se \u00e9 dif\u00edcil para a minera\u00e7\u00e3o industrial, disse, imagine para quem trabalha com PLG. Ele lembrou que muitas grandes minas nasceram de antigos garimpos e que as comunidades ainda t\u00eam orgulho de se dizer garimpeiras, embora o termo esteja hoje associado \u00e0 ilegalidade e ao crime. Ele perguntou o que a atividade garimpeira precisaria fazer para melhorar sua imagem e ampliar o relacionamento com as mineradoras, observando que muitas empresas t\u00eam vergonha de admitir parcerias com o garimpo. E lembrou que a PLG se destina a min\u00e9rio secund\u00e1rio e que, por isso, o garimpo n\u00e3o concorre diretamente com a lavra industrial, j\u00e1 que extrair o min\u00e9rio prim\u00e1rio exige mudan\u00e7a de regime.<\/p>\n<p>O consultor Adriano Espeschit, da J. Mendo Consultoria, lembrou que a rastreabilidade n\u00e3o \u00e9 um problema s\u00f3 do ouro. Ela ser\u00e1 exigida tamb\u00e9m para minerais cr\u00edticos e terras raras, com os passaportes digitais de produtos j\u00e1 previstos na legisla\u00e7\u00e3o europeia. Citou o certificado digital das baterias da Stellantis e o consumo crescente de j\u00f3ias de ouro reciclado. Adriano lembrou ainda que h\u00e1 garimpo ilegal n\u00e3o apenas na Amaz\u00f4nia, mas tamb\u00e9m no Rio das Velhas, na Grande Belo Horizonte, ao lado das opera\u00e7\u00f5es da AngloGold, com dragas incendiadas e popula\u00e7\u00f5es amea\u00e7adas. E trouxe a descarboniza\u00e7\u00e3o como tend\u00eancia: mesmo que a sociedade brasileira ainda n\u00e3o cobre isso, o cliente final dos produtos da minera\u00e7\u00e3o cobra cada vez mais. Pedro Onofre, da Core Case do Brasil, perguntou a Maia como as grandes mineradoras pretendem equilibrar produ\u00e7\u00e3o e metas ambientais.<\/p>\n<p>Le\u00e3o respondeu a Camboim elogiando a cooperativa dele em Peixoto de Azevedo, que tem recupera\u00e7\u00e3o de \u00e1reas, viveiro de mudas e tornearia mec\u00e2nica para pe\u00e7as de garimpo, e que ele j\u00e1 recomendou como modelo a garimpeiros do Par\u00e1 e do Maranh\u00e3o. Mas disse que a mudan\u00e7a precisa partir da minera\u00e7\u00e3o. &#8220;A minera\u00e7\u00e3o tem que estar disposta a fazer isso, e ela n\u00e3o est\u00e1.&#8221; Segundo ele, a maioria das grandes empresas t\u00eam medo dessas parcerias, porque o compliance enxerga risco alto de uso de cianeto ou merc\u00fario. A solu\u00e7\u00e3o, defendeu, s\u00e3o contratos muito claros, com a ANM participando da fiscaliza\u00e7\u00e3o. Ele disse ter alertado as cooperativas de que sensoriamento remoto e gravimetria permitem verificar se o ouro saiu mesmo daquela \u00e1rea. &#8220;N\u00e3o adianta a cooperativa se ancorar num contrato de anu\u00eancia para depois fazer o ilegal, porque isso n\u00e3o vai durar uma semana.&#8221; E comparou a situa\u00e7\u00e3o \u00e0 do Canad\u00e1, onde a minera\u00e7\u00e3o artesanal em lagos congelados \u00e9 vista como normal e n\u00e3o \u00e9 marginalizada. Mas reconheceu que, no Brasil, a atua\u00e7\u00e3o de dragas gigantescas e ilegais acaba &#8220;botando todo mundo no mesmo barco&#8221;. &#8220;A palavra n\u00e3o \u00e9 correr esse risco, mas fazer uma parceria para desenvolver o local.&#8221;<\/p>\n<p>Isadora complementou que o relacionamento com a comunidade ainda \u00e9 visto pelas empresas como custo, e n\u00e3o como investimento, e que essa vis\u00e3o precisa mudar nas pr\u00f3prias pol\u00edticas corporativas, considerando o contexto territorial, o desenvolvimento local e o futuro fechamento de minas.<\/p>\n<p>Sobre descarboniza\u00e7\u00e3o, Coelho explicou que eletrificar um carro-forte blindado de oito toneladas \u00e9 dif\u00edcil, pela autonomia. Lembrou que a frota da Brink&#8217;s tamb\u00e9m transporta medicamentos oncol\u00f3gicos, que precisam chegar no hor\u00e1rio e na temperatura corretos. Segundo ele, os medicamentos representam hoje 44% do valor das cargas roubadas no pa\u00eds. Por isso, a empresa come\u00e7ou pelos ve\u00edculos leves, usados em servi\u00e7os como a troca de bobinas em caixas eletr\u00f4nicos, o que permite testar a tecnologia em menor escala. J\u00e1 tem uma redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es equivalente \u00e0 de 30 carros-fortes rodando por dia e instalou mais de mil placas solares em suas filiais. Estudos para a transi\u00e7\u00e3o dos carros-fortes est\u00e3o em andamento.<\/p>\n<p>Maia detalhou a agenda ambiental da AngloGold. A empresa se preocupa com resili\u00eancia clim\u00e1tica, tanto das opera\u00e7\u00f5es quanto das comunidades, diante de proje\u00e7\u00f5es de um ver\u00e3o muito chuvoso em 2026 e 2027, seguido por uma poss\u00edvel seca hist\u00f3rica em 2028, a maior dos \u00faltimos 50 anos. A empresa mant\u00e9m um programa global de gest\u00e3o de recursos h\u00eddricos, por entender que a \u00e1gua pot\u00e1vel ser\u00e1 tema cada vez mais central na geopol\u00edtica, com meta de recircula\u00e7\u00e3o interna acima de 90% na planta metal\u00fargica, al\u00e9m de recupera\u00e7\u00e3o de nascentes e controle da qualidade de efluentes. No campo dos coprodutos, a empresa j\u00e1 produz \u00e1cido sulf\u00farico a partir do min\u00e9rio sulfetado, numa unidade de neg\u00f3cio pr\u00f3pria. Anunciou tamb\u00e9m uma parceria com a prefeitura de Sabar\u00e1 para usar rejeito na base asf\u00e1ltica de uma avenida, com acompanhamento do DER para homologar o material, e estuda briquetes de ferro feitos a partir de materiais hoje depositados. Todos os rejeitos, lembrou, j\u00e1 s\u00e3o dispostos em pilhas secas.<\/p>\n<p>Na descarboniza\u00e7\u00e3o, a AngloGold \u00e9 signat\u00e1ria do Pacto Global, com compromisso de emiss\u00f5es zero at\u00e9 2050 e meta intermedi\u00e1ria de redu\u00e7\u00e3o de 30% at\u00e9 2030, com base em 2021. No Brasil, a empresa j\u00e1 alcan\u00e7ou 62%, com energia el\u00e9trica 100% certificada como livre de carbono. O desafio agora \u00e9 o diesel, na frota e em geradores. A empresa vem substituindo geradores e tem um pipeline de troca de frota, com carregadeiras e betoneiras de subsolo 100% el\u00e9tricas.<\/p>\n<h2>Caminhos para o financiamento de projetos<\/h2>\n<p>O semin\u00e1rio terminou com um bate-bola sobre financiamento de projetos, com Ar\u00e3o Portugal da AP Consultoria, e Ivan Truzzi, da Amap\u00e1 Minerals. Ele lembrou que este foi o quarto evento da revista nesse formato, dois sobre ouro, um sobre terras raras e um sobre energia renov\u00e1vel, sempre restritos a convidados.<\/p>\n<h2>O caso Yamana<\/h2>\n<p>Ar\u00e3o Portugal, que \u00e9 administrador de empresas com MBA em supply chain, ex-gerente-geral de supply chain Norte e Nordeste da Vale, ex-vice-presidente de administra\u00e7\u00e3o da Yamana Gold e ex-country manager da Yamana e da Amarillo Gold e que hoje assessora a Aclara Resources em seu projeto de terras raras em Goi\u00e1s, al\u00e9m de ser conselheiro da Brasil Mineral, contou a hist\u00f3ria da Yamana, da qual foi um dos primeiros funcion\u00e1rios. Ele lembrou dos &#8220;yamanitos&#8221;, como eram chamados os trainees do primeiro programa da empresa, do qual fez parte Edvaldo Amaral.<\/p>\n<p>Ele narrou que, no in\u00edcio dos anos 2000, a Vale decidiu concentrar-se em min\u00e9rio de ferro, log\u00edstica e, talvez, cobre, e se desfazer de outros neg\u00f3cios. Helcio Guerra, ent\u00e3o diretor de ouro da Vale, acompanhou o processo. Representantes da Santa Elina, empresa brasileira com ativos em Goi\u00e1s e Mato Grosso, negociaram a compra da mina Fazenda Brasileiro, na Bahia, que a Vale pretendia fechar em dezembro de 2004. Um grupo formado por Antenor Firmino, Seiti Nakamura e pelo ge\u00f3logo Evandro Silva, entre outros, identificou na bolsa de Toronto uma empresa de pequeno valor, a Yamana Resources, cujo nome vinha dos yaman\u00e1s, povo ind\u00edgena da Patag\u00f4nia, onde a empresa tinha um ativo. Avaliada em US$ 8 milh\u00f5es, ela serviu de ve\u00edculo. Numa rodada de apresenta\u00e7\u00f5es a investidores, o grupo levantou US$ 50 milh\u00f5es. Com o dinheiro, pagou cerca de US$ 20,9 milh\u00f5es \u00e0 Vale por uma mina em opera\u00e7\u00e3o e assumiu passivos trabalhistas e ambientais estimados em US$ 3 a 4 milh\u00f5es. Em agosto de 2003, a empresa passou a se chamar Yamana Gold e fez um grupamento de a\u00e7\u00f5es de 27 para 1.<\/p>\n<p>&#8220;Essa foi a grande sacada: j\u00e1 entrar no mercado listada na bolsa, com opera\u00e7\u00e3o, produzindo e gerando caixa&#8221;, disse Portugal. A mensagem aos funcion\u00e1rios foi clara: n\u00e3o havia dinheiro nem para o capex de melhoria, e, se a mina n\u00e3o gerasse caixa, acabaria. Depois vieram os ativos de Chapada, em Goi\u00e1s, hoje da Lundin, que chegou a produzir 70 mil toneladas de cobre e 100 mil on\u00e7as de ouro por ano. Como a Yamana s\u00f3 reportava ouro ao mercado, o cobre levava o custo por on\u00e7a a territ\u00f3rio negativo. Tamb\u00e9m vieram o projeto S\u00e3o Francisco, em Mato Grosso, perto de Pontes e Lacerda, e um pequeno projeto em Fazenda Nova. Este foi desenhado &#8220;em papel A4&#8221;, com o engenheiro Seiti Nakamura, sem contrata\u00e7\u00e3o de empresa de engenharia: uma opera\u00e7\u00e3o de 36 mil on\u00e7as anuais, sobre 200 mil on\u00e7as de recurso, constru\u00edda com US$ 8 milh\u00f5es em 2004.<\/p>\n<p>Chapada estava havia 30 anos no papel, porque o cobre valia menos de US$ 1 por libra. A obra come\u00e7ou com o metal em torno de US$ 1,20, foi entregue no prazo e no or\u00e7amento, e o cobre subiu para US$ 3. O investimento, previsto para ser pago em 36 meses, pagou-se em oito. Aos pre\u00e7os de hoje, calculou Portugal, Chapada geraria algo como US$ 1,2 bilh\u00e3o. A Yamana, que valia US$ 30 milh\u00f5es em dezembro de 2003, quando a on\u00e7a estava entre US$ 330 e US$ 350, chegou a valer cerca de US$ 20 bilh\u00f5es por volta de 2011. A a\u00e7\u00e3o atingiu o pico de pouco mais de US$ 20 em 8 de novembro de 2012.<\/p>\n<p>Para Portugal, duas li\u00e7\u00f5es se destacam. A primeira \u00e9 que comprar uma opera\u00e7\u00e3o existente tornou muito mais f\u00e1cil convencer investidores, que viam compet\u00eancia, m\u00e3o de obra, conhecimento e produ\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o apenas risco. Quem duvidava que houvesse ouro numa mina que a Vale ia fechar, n\u00e3o levava em conta a diferen\u00e7a de custo entre uma j\u00fanior e uma grande empresa. A segunda \u00e9 a credibilidade. &#8220;O recado que a gente d\u00e1 ao investidor \u00e9: cumpra o que voc\u00ea promete. N\u00e3o diga aquilo que voc\u00ea n\u00e3o vai cumprir.&#8221; A Yamana, disse, entregou mais do que prometia at\u00e9 certo momento, quando outras decis\u00f5es mudaram o rumo da empresa, depois da sa\u00edda de Antenor, em 2010.<\/p>\n<p><em>&#8220;O recado que a gente d\u00e1 ao investidor \u00e9: cumpra o que voc\u00ea promete. N\u00e3o diga aquilo que voc\u00ea n\u00e3o vai cumprir&#8221;.<\/em>\u2014 Ar\u00e3o Portugal, AP Consultoria<\/p>\n<p>Ivan Truzzi, CEO da Amap\u00e1 Minerals, autora do IPO mais recente de uma empresa com projeto no Brasil na bolsa de Toronto, \u00e9 engenheiro eletricista pela USP, p\u00f3s-graduado em finan\u00e7as pelo Insper, diretor executivo da Starboard Partners e conselheiro da termel\u00e9trica Pampa Sul, com 11 anos de experi\u00eancia em ativos especiais, turnarounds e reestrutura\u00e7\u00f5es. Ele contou a retomada da mina de Tucano, no Amap\u00e1, que produziu cerca de 1,6 milh\u00e3o de on\u00e7as em 20 anos e passou por diversos donos e nomes, incluindo o grupo EBX, a Beadell e a Great Panther. A mina atingiu o pico de 166 mil on\u00e7as em 2014 e produziu mais de 120 mil on\u00e7as por oito anos seguidos, mas saiu de opera\u00e7\u00e3o em 2022 e entrou em recupera\u00e7\u00e3o judicial.<\/p>\n<p>A Starboard, fundo brasileiro especializado em ativos com bons fundamentos que n\u00e3o conseguem gerar valor por uma raz\u00e3o espec\u00edfica, viu ali uma oportunidade semelhante \u00e0 da antiga Minera\u00e7\u00e3o Cara\u00edba, hoje Ero, de cuja retomada tamb\u00e9m participou. O ativo tinha hist\u00f3rico de produ\u00e7\u00e3o, cerca de 1,1 milh\u00e3o de metros de sondagem e uma planta de lixivia\u00e7\u00e3o com carv\u00e3o de 12 mil toneladas por dia, uma das maiores do pa\u00eds, com moinho semi aut\u00f3geno, moinho de bolas e sete tanques de 2,4 mil metros c\u00fabicos. Construir algo equivalente do zero, estimou Truzzi, custaria &#8220;muitos bilh\u00f5es de d\u00f3lares&#8221; e levaria pelo menos cinco anos, mesmo que tudo desse certo.<\/p>\n<p>Os acionistas injetaram capital, a empresa saiu da recupera\u00e7\u00e3o judicial e, depois de um ano de trabalho, a planta voltou a funcionar em maio deste ano, com o primeiro ouro em muitos anos. As reservas recertificadas somam 1,1 milh\u00e3o de on\u00e7as apenas em lavra a c\u00e9u aberto, o equivalente a cerca de dez anos de produ\u00e7\u00e3o a 100 mil on\u00e7as por ano. A mina j\u00e1 emprega 1.207 pessoas e caminha para 2 mil.<\/p>\n<p>O IPO, explicou Truzzi, financia a segunda fase do plano. A primeira foi retomar a produ\u00e7\u00e3o e recertificar as reservas. A segunda \u00e9 desenvolver uma mina subterr\u00e2nea, de teor mais alto, que pode reduzir o custo total e ampliar a vida \u00fatil, e retomar a explora\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o de Pedra Branca, no greenstone belt do Escudo das Guianas. A terceira ser\u00e1 a explora\u00e7\u00e3o combinada com crescimento por aquisi\u00e7\u00f5es. Por ser um ativo \u00fanico, com uma planta e v\u00e1rios pits, e ter hist\u00f3rico de balan\u00e7o alavancado, a empresa optou por financiamento via equity, e n\u00e3o por d\u00edvida, apesar de reconhecer que o Brasil oferece linhas de fomento com juros baixos. &#8220;N\u00e3o quer\u00edamos estar pressionados por d\u00edvida. Quer\u00edamos o conforto de estar financiados por capital para desenvolver nossos projetos no tempo certo, na medida certa.&#8221;<\/p>\n<p>Perguntado por que escolheu Toronto, bolsa pouco usada por empresas brasileiras nos \u00faltimos anos, Truzzi apontou o apetite e o conhecimento dos investidores canadenses por mineradoras juniores, a clareza regulat\u00f3ria, com o NI 43-101, e o precedente da pr\u00f3pria Ero. Na B3, disse, o processo seria mais caro e dif\u00edcil, porque os investidores locais n\u00e3o est\u00e3o acostumados a esse tipo de ativo. Em Nova York, a empresa ainda n\u00e3o teria porte suficiente. O NI 43-101, acrescentou, ajuda a organizar a casa, porque exige informa\u00e7\u00f5es consistentes sobre geologia, minera\u00e7\u00e3o e finan\u00e7as. A empresa tamb\u00e9m precisou construir do zero as \u00e1reas que n\u00e3o existiam na retomada, como jur\u00eddico, RH, riscos, compliance, geologia e opera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h2>O roadshow e o passo a passo<\/h2>\n<p>Truzzi contou que fez, com o executivo Renan, cerca de cem reuni\u00f5es com investidores de perfil t\u00e9cnico, que mant\u00eam engenheiros de minas e ge\u00f3logos em suas equipes. A prioridade foi atrair o que chamou de &#8220;real money&#8221;: investidores de longo prazo, que conhecem minera\u00e7\u00e3o e ouro, e n\u00e3o quem compra o papel para vender logo em seguida. N\u00e3o houve perguntas surpreendentes, disse, mas muitas perguntas interessantes, e cada reuni\u00e3o serviu de aprendizado. Ele resumiu o passo a passo em poucas etapas: montar um bom time, escolher bem os assessores, como o Mattos Filho, e o sindicato de bancos, formado por BTG e Bradesco no Brasil e Canaccord e BMO no Canad\u00e1, preparar demonstra\u00e7\u00f5es financeiras auditadas e construir o relat\u00f3rio t\u00e9cnico. &#8220;Depois \u00e9 performar, ir a mercado e passar o chap\u00e9u.&#8221; Sobre a import\u00e2ncia das pessoas, brincou: &#8220;Por enquanto ainda s\u00e3o as pessoas. Daqui a uns anos, pode ser que s\u00f3 tenha sobrado a intelig\u00eancia artificial.&#8221;<\/p>\n<h2>Em resumo<\/h2>\n<p>A primeira conclus\u00e3o do encontro \u00e9 que o ciclo atual do ouro tem fundamentos mais estruturais do que conjunturais. A participa\u00e7\u00e3o de bancos centrais e investimento na demanda subiu de 40% para cerca de 60% em 15 anos, os juros reais continuam baixos nas principais economias, o d\u00f3lar perde for\u00e7a como reserva de valor e a rela\u00e7\u00e3o reserva\/ produ\u00e7\u00e3o, de cerca de 20 anos, \u00e9 pr\u00f3xima do lead time de novos projetos. Nenhum dos participantes arriscou proje\u00e7\u00f5es, mas a leitura predominante foi de pre\u00e7os sustentados por mais tempo.<\/p>\n<p>A segunda conclus\u00e3o \u00e9 que o gargalo brasileiro n\u00e3o \u00e9 geol\u00f3gico. O pa\u00eds tem boa parte do territ\u00f3rio pouco mapeado, o ouro lidera as an\u00e1lises feitas para pesquisa mineral e h\u00e1 exemplos de implanta\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, como os 23 meses da G Mining em Tocantinzinho. Os limites est\u00e3o na execu\u00e7\u00e3o. Faltam profissionais: os ingressantes em Engenharia de Minas e Geologia ca\u00edram de 32 mil para 7 mil em pouco mais de uma d\u00e9cada, centenas de operadores se aposentam nos pr\u00f3ximos anos e seis minas subterr\u00e2neas disputam os mesmos trabalhadores. Falta maturidade de engenharia antes da decis\u00e3o de construir, como mostrou o relato da Hochschild. O licenciamento \u00e9 imprevis\u00edvel. A legisla\u00e7\u00e3o trabalhista do subsolo \u00e9 de quase um s\u00e9culo atr\u00e1s. E o custo de capital, com a Selic de 13,75%, afasta o investidor local de projetos pr\u00e9-operacionais.<\/p>\n<p>A terceira conclus\u00e3o diz respeito \u00e0 disciplina. Da Hochschild, que segura um projeto j\u00e1 licenciado at\u00e9 a engenharia amadurecer, \u00e0 PA Gold, que avalia ativos com o ouro a US$ 3.000, passando pela Pan American, que mira custos abaixo de US$ 2.000, os executivos insistiram que o pre\u00e7o atual n\u00e3o deve orientar decis\u00f5es de longo prazo. O alerta de Camilo Farace sobre o ciclo em que a on\u00e7a caiu de US$ 1.900 para US$ 1.050 ecoou nas falas sobre escalada de custos e sal\u00e1rios.<\/p>\n<p>A quarta conclus\u00e3o \u00e9 que a rota mais r\u00e1pida para crescer tem sido a retomada ou a compra de ativos existentes. A hist\u00f3ria da Yamana, que nasceu comprando uma mina que a Vale ia fechar, e os casos de Jacobina, da Ero e da Amap\u00e1 Minerals mostram que opera\u00e7\u00f5es consideradas invi\u00e1veis num contexto podem ser muito rent\u00e1veis em outro. Ao mesmo tempo, a bolsa de Toronto volta a aparecer como caminho para financiar projetos brasileiros por meio de equity, diante das dificuldades do mercado local.<\/p>\n<p>Por fim, o painel de ouro respons\u00e1vel indicou uma mudan\u00e7a de abordagem em rela\u00e7\u00e3o ao garimpo, que passa a ser tratado como realidade territorial a ser formalizada por meio de parcerias com regras claras, e n\u00e3o apenas como ilegalidade a ser removida. O caso do Gurupi, onde o confronto travou o licenciamento por anos e a parceria destravou licen\u00e7as em meses, foi o exemplo mais citado. A quest\u00e3o da origem, por\u00e9m, segue sem uma resposta regulat\u00f3ria que satisfa\u00e7a quem opera legalmente: o projeto de lei de rastreabilidade foi criticado por trazer custo e burocracia sem atacar as cerca de 35 toneladas que ainda deixam o pa\u00eds ilegalmente. E a coordena\u00e7\u00e3o entre empresas para formar m\u00e3o de obra, defendida em quase todos os pain\u00e9is, ainda est\u00e1 por ser constru\u00edda.<\/p>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/brasil61.com\/api\/v1\/serve_pixel\/17677\/92048\" alt=\"Pixel Brasil 61\" class=\"b61_pixel\" width=\"0\" height=\"0\"><\/p>\n<input type=\"hidden\" id=\"baseurl\" value=\"https:\/\/noticiasdestaque.com.br\"><input type=\"hidden\" id=\"audio_nonce\" value=\"d295f682a8\">","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a on\u00e7a do ouro negociada em torno de US$ 4.300, depois de ter superado US$ 5.000 no pico recente, o setor mineral brasileiro vive um momento raro de margens amplas, capta\u00e7\u00f5es bem-sucedidas em bolsa e investidores \u00e0 procura de ativos. 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